Último dia do ano. Mais um ano! Parece que nem vi seus dias passando, suas horas correndo velozes. Como dizia Cazuza, o tempo não pára. Aliás, quem foi que inventou o tempo, hein? Acordei triste hoje. Fui trabalhar com uma certa nostalgia na alma...
Seria muito egoísmo de minha parte pedir que o tempo parasse? Quando a pessoa que a gente mais ama tem Alzheimer, desejaria que este tempo ingrato não existisse. Às vezes penso que seria bom ver os ponteiros do relógio parados, só para não continuar vendo a doença progredir a cada dia. É muito difícil observar que nos últimos meses ele mergulha mais no universo estranho e confuso dele. Qualquer simples frase já não tem sentido (quando ele consegue pronunciá-las).
Estava adiando para escrever sobre isso. Afinal, falo muito pouco sobre o Alzheimer com outras pessoas. Escrever é meu melhor desabafo e não incomodo ninguém. Parece que vou esvaziando o coração e depositando palavras nesse meu cantinho externo que (eu acho) poucos têm acesso.
No dia do meu aniversário, em novembro, postei apenas as coisas boas que aconteceram. Resolvi que não iria citar o episódio que envolvia meu pai. Fomos jantar numa pizzaria e, na volta, ele não reconheceu a nossa casa. Não queria descer do carro. Foi a primeira vez que deixou de reconhecer uma coisa tão sua. Percebi que seus olhos estavam totalmente perdidos, correndo de um lado para outro, tentando localizar algo que o fizesse lembrar do cenário que ele mesmo construiu. Também não lembrou que era meu aniversário e nem se importou em me dar presente - coisa que ele nunca fez antes. Sempre pedia para minha mãe comprar algo para mim.
Daqui a 13 dias ele completa 64 anos. Meu Deus, é tão jovem ainda! Como pode piorar desse jeito em tão pouco tempo? Já tentei compreender, busquei motivos, razões, causas científicas... Nada me conforta ou ampara. Às vezes me digo conformada, mas vejo que ainda não superei. Essa doença é cruel demais! Tira a pessoa aos poucos da gente; faz com que ela vá desaparecendo dentro de si mesma, feito um eclipse atingindo paulatinamente o cérebro. Ele já não entende nada do que dizemos. Não absorve uma palavra. Seus ouvidos são como vento forte, levando para longe tudo o que foi aprendido.
Tento disfarçar a tristeza para minha mãe não desmoronar de vez, mas acho que também tenho direito de, pelo menos neste último dia do ano, derrubar lágrimas, transbordar o choro, lavar a alma. Estou com o coração em pedaços e minha fragilidade nem está me incomodando. Preciso de solidão hoje. Quero ficar com a minha dor e apenas chorar.
Que 2009 traga força e saúde à minha família! É só o que peço. E que a tristeza passe veloz neste Ano Novo, como sempre foram as horas...






































