sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Sepultamento de 2016




Jamais imaginei que seria complicado enterrar 2016, um ano de muitas perdas e poucos ganhos. Não via a hora de passar pelo dia 31 e começar de novo. Mas aí virei a página para 2017 e me veio a seguinte pergunta: começar o quê? E o vazio que transbordou em mim no dia 1º de janeiro? Como explicar? Percebi que não queria sepultar 2016. Nele ainda havia a minha mãe, que nunca vou conseguir enterrar no meu coração. Ela pulsa aqui dentro. Vive. Em qualquer outra dimensão. Sou um pedaço dela, como gostam de dizer as minhas tias.

Era o primeiro dia do ano e vi no espelho uma mulher sem perspectiva. Não tinha mais de quem cuidar, a quem olhar ou chamar de 'minha flor'. As páginas em branco da agenda me assombraram. Sofri para jogar no lixo os compromissos que tinha anotado no ano anterior. Logo eu, que não me apego a "fins de ano". Quero sempre passar por eles em silêncio, na minha discrição. Mas 2016 ainda permanecia sobre meus ombros. Era um peso imenso pra libertar assim... tão simplesmente, só porque mudou o calendário.

Virou o ano, mas eu ainda me perco no vazio da existência. Uma hora isso tudo vai passar, eu sei. Mas por enquanto as ausências me desarrumam. Falta algo, que talvez jamais se complete. Perder um pai e uma mãe não é uma dorzinha qualquer.  É uma cratera que enraíza no peito e nenhum cimento pavimenta a estrutura abalada. É uma porcelana moída em várias metades. É uma reflexão de quem fica e se pergunta para onde vai.

Eu nunca tive pressa de nada na vida. Acho que tudo tem o momento certo de acontecer e, com cautela, as coisas caminham bem. Fluem. Porém, por um instante, desejei que 2016 ainda estivesse aqui e me trouxesse os maiores desafios pelos quais já passei. Queria tê-los de novo só pra reviver momentos inesquecíveis ao lado dela, que me deixou tantas plantas para cuidar. Uma bênção estar entre pétalas e caules. Eis um pedaço dela em mim.

Hoje é o sexto dia de 2017. Não tenho planos. Mas na agenda já tenho alguns compromissos. Bom sinal. A vida segue em movimento e dois anjos olham por mim lá do céu. É nisso que vou me concentrar. São mais de 350 dias pela frente e muita coisa para construir, arquitetar e concretizar. Vai ser um ano diferente. Apenas me acolha com carinho, 2017. Aquela borboleta branca que repousou ao nosso lado, na virada do ano, bateu asas. Deixou 2016 para trás. Trouxe o voo da esperança e da paz.

Tudo o que eu preciso agora é de uma 'vírgula' - uma metáfora linda apresentada no filme "Um vendedor de sonhos".  É isso. Uma vírgula. Minha agenda não vai ficar em branco. Tive agora mesmo um sepultamento. E um renascimento.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Uma carta (de amor e dor) à vida



Essa não é uma carta de despedida. É de amor, e de dor. Mas não tem um destinatário real. É uma carta que escrevo à vida, para que ela saiba o quanto ainda tem de mim neste corpo, mesmo diante de tantos desafios. Querida existência, por que me perturba com tanta tristeza ultimamente? Talvez eu seja mulher forte, por isso me despeja esses enfrentamentos, como um rio que me banha e me afoga na correnteza da angústia.

Saiba que eu sou forte sim. Não desisto até as coisas darem certo. E se não derem, paciência. Pelo menos eu tento. Já à beira dos 40 anos, tenho orgulho de tentar inúmeras vezes, pois à beira dos 20, eu simplesmente desistia e tocava em frente. Passava por cima do problema, sem resolvê-lo, e adeus. Deixei pessoas boas para trás com essa atitude pífia. Varri tudo e abandonei o 'x' da questão sob o tapete. Hoje não faço mais. Você, vida, me trouxe amadurecimento e agora vou até o fim, até esgotar possibilidades. Busco ajuda quando preciso e lá na frente não tem mais remorso, mesmo que tudo dê errado. Obrigada pelo amadurecimento, por me fazer entender o que vale e o que não vale a pena.

Você me deu pais maravilhosos e uma irmã que é um presente. Meu pai você levou, não sem antes deixá-lo sofrer. Foi duro, viu! Enfrentar o Alzheimer, o sofrimento, a dor e a morte de uma pessoa que a gente ama tanto... Deus, não foi fácil! Me lançou à mais profunda agonia, me derrubou e depois me levantou de novo. Como quem diria, secamente: "vai e segue". Me fez enxergar que os dias são uma questão de urgência. Se deixar algo pra ontem, não realiza mais. Hoje é quando podemos fazer a diferença. O amanhã é incerteza. Obrigada por me trazer esse aprendizado.

A tantos amigos você me apresentou, vida. Essa porção de riqueza que é a amizade foi um dos melhores presentes. Tenho poucos ao meu lado, mas valem por um batalhão de esperança. Sei que posso contar com eles a hora que for. Já me levou alguns embora também, sem explicação. Esse é o seu mistério, né?! Nunca irei desvendar esses por quês. Aceitar é também um desafio. Não conformidade. Agradeço esses que permanecem comigo, por décadas.

Ainda tenho força, viu. Essa vida pôs minha mãe doente agora. Uma doença desgraçada. Um mal que leva milhares e milhares por ano e nem a ciência se dá ao trabalho de descobrir a cura. Ontem mesmo a médica oncologista me disse: "Ainda bem que a sua mãe tem quem cuide dela, pois muita gente chega a essa fase sem ter uma pessoa responsável." Nossa, vida, que lamentável! Obrigada por me permitir cuidar de outra pessoa que eu amo e que construiu cada tijolinho do meu DNA, firme, embora às vezes a estrutura abale. A experiência de cuidar de alguém é indescritível. A gente se sente capaz. Mas também perdedora, por não reverter a situação, cujo futuro é certo.

Fico pensando, vida, nos tantos outros enfrentamentos, nas experiências que ainda me cabem. Tudo o que recebi de ruim até agora me instruiu ao lado bom das coisas. Como uma fortaleza de paz que emoldura a alma. Esta é realmente uma carta de amor, pois você também depositou esse sentimento dentro de mim. Tenho amor por tudo o que tenho, pelas pessoas que me cercam, pelas flores que crescem no meu jardim, pelas árvores que se agigantam pelas ruas e nos encantam com sua delicadeza.

Você já me levou a tantos lugares, vida. A cenários tão incríveis, à natureza tão exuberante! Sou grata por essas oportunidades, inclusive pelo meu trabalho, que me impulsionou a ser uma pessoa de bem. Uma pessoa que não precisa passar por cima de outras para ter algo. Basta ser. O ter é consequência.

Não é mesmo uma carta de despedida, vida. Se eu morrer amanhã vai ser pura coincidência ter deixado o rio de lamentos e agradecimentos jorrar por essas palavras. A represa sempre abre uma hora ou outra. A carta era só pra dizer que eu continuo aqui, pronta para novos e grandes desafios. Você, que me testa todos os dias, agora sabe que eu não desisto fácil. A tristeza não dura tanto. Nem a alegria, infelizmente. Elas passam, como passam os dias. Mas sempre trarão algo de bom. Algum aprendizado. É... obrigada pelos testes.


sexta-feira, 15 de julho de 2016

De desafios que se vive a vida


"Vem sentar-se comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos que a vida passa e não estamos de mãos enlaçadas. Depois pensemos, crianças adultas, que a vida passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, mais longe que os deuses. Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente e sem desassossegos grandes." 
(Fernando Pessoa e um trecho de meu poema favorito)

Estou às margens dos 40 anos e isso me assombra. Olho a minha silhueta no espelho e vislumbro uma menina de 20. Isso também me assusta. Deveria me sentir uma mulher-senhora, dona do destino, vida estável, nenhuma indecisão. Mas continuo vivendo um dia de cada vez, como se amanhã não existisse. Afinal, vamos combinar, não existe. Até que eu abra os olhos amanhã cedo novamente. 

Dia desses, com minha mania de ser menina, pratiquei ginástica artística e rítmica. Tive várias quedas na cama elástica, que me impulsionava vários metros acima até me despejar novamente em queda livre. Senti-me, mais uma vez, moleca. Com fitas e arcos, rodopiando, bailando conforme a vida.

Quando você presta atenção na sua trajetória e percebe que é um momento de mudança, mesmo que isso signifique entrar na contramão, sente-se com medo, porém, livre. Ainda hoje uma mensagem de um rapaz que foi importante pra mim, lá no passado, me fez entrar no eixo central. "Devia ter me casado com você", disse ele, supostamente arrependido com o fim do casamento.

Não, não devia. As pessoas fazem escolhas, magoam e atropelam aquelas que deixam para trás, mas tocam a vida, de um jeito ou de outro. Com aquela pessoa ou com outra. Ninguém é feliz o tempo todo. Ninguém é triste todo instante. Uma porção de nós segue em frente. Um rastro de nós é apagado, como as pegadas na areia.

Aquela menina de 20 ou 40 que se lança para o alto numa cama elástica vai cair, certamente, até que o treino a deixe segura. Mas vai levantar quantas vezes forem necessárias. É o aprendizado que fortalece a base do exercício diário. É a persistência. É saber que precisa mudar e dar um novo passo, desde que ele represente satisfação.

A gente só dá mais valor à vida quando perde alguém ou está perdendo. A mulher que me deu a vida está bem doente, no quarto ao lado. Acabei de cuidar, há poucos anos, do homem que mais amei, meu pai, e que perdi tão precocemente. Agora vem a vida e quer levar minha mãe. É triste, exaustivo para o coração do ser humano, tão frágil.

Por isso que às vezes ainda me sinto a menina de 20, que não tinha de pensar no que fazer, qual rumo tomar. Apenas vivia. Eu vivo. Se existir ou não o amanhã, não vou me arrepender de ter vivido tudo o que venho vivendo. É de desafios que se vive a vida, e por aqui a gente vence um por dia. Considero um bom resultado.

domingo, 20 de março de 2016

A fresta



Levo um olhar à janela toda vez que passo por ela, numa rua movimentada, esquina de um dos encontros desta minha vida. Esteja um dia de chuva ou sol, nublado ou iluminado, a fresta da janela permanece na mesma posição. Tem menos de 15 centímetros de abertura. Imagino um raio estreito transbordando pela sala da casa. Uma luz limitada. Fico com pena. Em dia de sol, a janela poderia estar totalmente aberta pra deixar o ar inundar o ambiente.

É assim com algumas pessoas. Se permitem pouco. Apenas uma fresta de tentativa por uma vida regrada. Tudo no seu devido lugar. Na sua rotina. Horários pontuais. Tem hora pra almoçar. Hora pra dormir. Nunca hora pra se divertir ou aproveitar a trajetória antes que ela acabe na próxima curva.

Hoje, foi por uma fresta que a minha vida não teve um fim. Seria um acidente grave na estrada, se eu não estivesse devagar. Um carro rodopiou na minha frente e quase ocorreu um engavetamento. Prudência é o nome da fresta desta manhã.

Limitada é a fresta da janela daquela casa. É como esperar que todo dia chova e a água invada a sala. Deixa o sol entrar, já dizia a música. O sol vai voltar amanhã e quem sabe depois de amanhã. Abra a janela. É outono! A estação em que a natureza dispensa as folhas pra receber novas pétalas e cores. Se permita ver e experimentar outros horizontes! A vida é feita de vários ângulos. O da fresta é o mais restrito.


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

"Não nos é prometido o amanhã"

Um beijo demorado e desesperado de amor. Um olhar profundo. Mãos entrelaçadas, absorvendo suor, calor de duas almas. Carinho sem fim. Tudo isso é certeza pra hoje. O tempo é sempre menor agora sem pensar no amanhã. Pra que planejar tanto um futuro se não aproveita o dia de hoje? Esta é uma questão que visto ao longo do dia e desfilo com ela por aí...

"Vou te amar como se eu fosse te perder".

Linda e verdadeira letra de Meghan Trainor / feat. John Legend



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

November & Me



Novembro é o mês em que minha história começou. Páginas e páginas lá atras, escritas uma a uma, e viradas todos os dias, como sempre se configurou a vida, num deslizar de folhas que se preenchem de letras e cores, aromas e sabores, doçuras e amarguras.

É o meu livro que se iniciou 39 anos antes deste momento. É uma obra, ainda bem, inacabada. Depois de concluir este texto terei mais uma página para virar e uma porção de coisas para agregar. Assim são meus dias. Aprendo. Agrego. Acolho. Concretizo. Amadureço. Erro. Acerto. Absorvo. Observo. Silencio.

Difícil passar pelo tempo sem perceber suas marcas, suas expressões talhadas numa espécie humana de ampulheta. O corpo muda. A autoestima declina. A pressa de viver tudo o que não vivi aumenta. A impaciência toma conta. Não tolero coisas que antes eu tolerava (mas deixo pra lá algumas vezes).
Os sonhos ficam mais próximos. O peso na balança sobe em disparada, feito o dólar. O bolso esvazia em função da ansiedade. O cabelo perde a cor, o brilho. A música se torna mais lenta. O coração acalma e acelera ao mesmo tempo. A alma flutua em busca de perspectivas. As viagens impulsionam e dão fôlego à coleção de dias trabalhados sem folgar.

A idade é um ir constante. É aprendizado. É letra de canção clichê, sussurrando aos ouvidos que "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia." É um enxergar-se de outra forma. Já não vejo mais uma menina no espelho. Vislumbro uma mulher. Bem mais adulta do que aquela que eu gostaria de ver. Velha. Chata às vezes. Feliz e satisfeita em outras ocasiões. Perfeccionista. Frustrada com o que não conquistou ainda. Com o que deixou de falar. Mas esperançosa diante de uma porta aberta a infinitas possibilidades. Não deu certo agora? Vai dar amanhã. É assim que oxigeno meu cérebro. Puf! Tem que dar certo!!! Este é o lema que carrego na bagagem.

São quase quatro décadas de existência. Tenho orgulho de olhar para trás e rever cenários de conquistas, de crises, de alegrias, tristezas, dores e alívios. De cultivo à vida. De superação. De saudades do meu pai. Do riso dele. Da bronca. Da cara feia. Do amor que transbordava. E ainda permanece. Dessas coisas entre o céu e a terra que arfam mistério.

O modo de encarar a travessia muda com o tempo. A ponte se torna mais estreita, porém, mais empolgante. Espio o despencar de uma folha da árvore. Ela flutua ao vento, dança seu balé de alguns segundos, e tudo termina ao forrar o chão. Se colaborou para render bons frutos à árvore da vida, no ano seguinte haverá mais folhas pincelando cores à paisagem. É um cenário novo que se instaura a cada dia. Olhe pela janela.





quarta-feira, 11 de novembro de 2015

domingo, 19 de julho de 2015

Um céu de coisas pra dizer no olhar




Você já observou uma atleta da ginástica artística em quadra? Esqueça a delicadeza, a precisão dos passos, os gestos, a força, a leveza, os rodopios, os voos livres. Perceba o olhar dela. A concentração, a respiração, a face alheia aos aplausos e gritos de um ginásio inteiro surpreendido. A garota mede, milimetricamente, os limites da quadra, risca o chão com o olhar fixo no objetivo e atravessa até o outro lado, flutuando pelo solo. Sem asas. Eis a arte de voar com um talento fantástico.

É nessa trajetória que vejo brotar o objetivo. Nada se alcança sem esforço. É com essa determinação que as pessoas deveriam ir para o trabalho todos os dias. Com essa mesma perspectiva e desejo chegar até o seu amor, até a sua família. Com essa persistência ganhar outros países, outros oceanos, outros seres. A vida nada mais é do que um constante ir, e por mais que você volte, está sempre chegando a algum lugar, que já não é mais o mesmo, pois você mudou durante o percurso, fez a viagem que precisava fazer, alimentou seus anseios, triturou seu medo.

Sou a favor de ir a qualquer lugar do mundo, mesmo sem sair da cadeira. Antes de ver o seu destino ao vivo, meses antes você já está "turistando"com seu cérebro. E quando realmente chega é bom que a paisagem te arrebate e você diga: "É melhor do que eu esperava." Quantas e quantas vezes aterrissamos em terras estranhas, mas admiramos tudo com o olhar mais incrível que já tivemos! Deveríamos ter esse mesmo olhar todos os dias, para todas as coisas.

Sozinha ou acompanhada, tenha um tempo para você mesma. Tenha um bocado de horas para admirar o céu e decifrar tudo o que ele tem a dizer. O começo do dia, o fim da tarde, a explosão de cores, as nuvens pinceladas de formas diferentes. Num momento complicado da minha vida, alguém de repente me abraçou e disse: "Olhe para o céu!". E então eu percebi que nunca tinha visto, de verdade, aquela imensidão sobre nossas cabeças. Quantas estrelas! Quanto mistério tem o universo. Um infinito de coisas para desvendar!

Difícil observar uma estrela sozinha. Elas existem, mas iluminam muito mais quando estão juntas e formam uma constelação de rara beleza. É assim com a gente, principalmente quando se está próximo de pessoas que têm prazer de desfrutar da sua companhia. Brilham juntas e não desejam ofuscar as outras. Querem te apresentar às pessoas que ama.

Dias atrás uma amiga me apresentou à filha dela, que nascera um dia antes. "Essa é uma amiga que a mamãe ama muito." Que maneira linda de chegar ao mundo de alguém. Me senti estrela naquele nascimento. Ser bem-vinda ao universo de uma criança-anjo que conquista seu primeiro dia de vida na Terra é colher ternura num campo de tulipas.

Está todo mundo buscando seu caminho. Para alguns há mais flores, enquanto para outros, mais pedras. Depende do ponto de vista, de como se olha para o horizonte. Tem gente que faz um dominó com as pedras e segue no jogo, ganhando ou perdendo. Mas tem gente que tropeça, cai e não levanta. Esquece de olhar o céu e ver que depois da escuridão surgem os raios de sol. Como um papel em branco para escrever uma outra história.

Trace seu objetivo. Selecione as pessoas que valem a pena estar ao seu lado. Percorra mentalmente o oceano até aquela ilha magnífica no Sul da Itália. Navegue em pensamentos. Vá. De verdade. Mas volte. Regresse com um céu de cultura e aprendizado, com uma esfera celeste de experiências. Naquele último salto da ginasta, repare o quanto de equilíbrio e satisfação ela esbanja.





sexta-feira, 10 de abril de 2015

O tempo de cada um

Por volta de 6h30 da manhã o sol explodiu na minha janela. Não era só um raio. Era a luz intensa entrando no meu quarto sem qualquer cerimônia. Minha luz interna estava apagada. Foi prontamente obrigada - e contrariada - a se acender. O tempo e eu não estávamos na mesma frequência. Sabe aquela equação? Dia lindo + pessoa indisposta = sair da cama de qualquer jeito e com cara amarrada.

Essa falta de sintonia com o tempo me deixou encasquetada somada ao tanto de coisas que anda passando pela minha cabeça. Como pode uma pessoa acordar triste num dia tão irradiante? Se pelo menos eu pudesse absorver as energias do sol e me nutrir de luz... Eu posso. E por que não faço? Sei lá. É coisa para pensar depois. Depois?

Ouvi outro dia que eu sempre deixo as coisas para depois. Doeu essa verdade reverberando aqui dentro. Há fatos e pensamentos que prefiro ignorar para refletir depois, evitando o sofrimento agora. E então o tempo passa e muita coisa me consome. Resultado: fico triste e frustrada comigo.

Mas tudo bem. Acontece de vez em quando. Não sempre, ainda bem. Estava lendo uma crônica da Martha Medeiros sobre o tempo e a necessidade de as pessoas comentarem sobre ele em cartas, e-mails... Tá chovendo aí? Aqui tá um calor danado. Ou: Um frio do cão!

O tempo influencia a vida das pessoas, sem dúvida. Ilumina ou deixa tudo nublado. Um dia chove, outro faz sol. É assim com a gente. Uma hora feliz, outra nem tanto.

Hoje pairou uma nuvem por aqui. Se instalou bem alta, ligeira, mas já está mudando de posição. Vai seguir outra rota dentro de alguns minutos e conduzir seus tons de cinza para outra morada. Meio dia desta sexta-feira já se foi. A outra parte começa a ganhar cores. Estou armada com pincéis.



domingo, 22 de março de 2015

Fazer e desfazer a mala




Sempre gostei de "fazer" a mala. A gente enche a bagagem de roupas, mas muito mais de expectativas. E quando vê, não cabe mais nada, nem um fio de cabelo passando pelo zíper. Bem que caberia! Pensa naquele vestido lindo que dobrou e colocou embaixo de tudo, imagina a ocasião em que irá usá-lo, os olhares que vai receber. Também pensa naquela saia que não coube e que terá de ficar no guarda-roupa.

Tenho prática e habilidade em dobrar tudo de forma organizada. Coloco música para relaxar e não esquecer nada. Olho a previsão do tempo e tenho noção de quantas blusas de frio ou calor devo inserir no pacote de viagem, nas tão almejadas férias.

É... viajar é tudo de bom. Embrulhar a esperança de que tudo vai dar certo é melhor ainda! A ideia de ficar em alto mar por vários dias não me agrada muito, mas, assim como a mala, me dobro em mil pedaços e me deixo levar ao balanço das ondas.

Ao final do dia, metade da mala permanece sem uso. A expectativa é muito maior e precisaríamos multiplicar as noites para usar tudo o que está apertadinho ali dentro. Uma explosão de coisas se passa pela cabeça, como se todos os sonhos estivessem armazenados num cantinho da mala. É como dobrar a vida em várias partes, adormecer um lado das coisas, deixar outros à mostra, tirar a roupa de todos os dias e vestir uma nova pele. É despentear, descabelar, amassar e desamassar. É se entregar!

É voltar para casa dias depois e desfazer tudo o que estava ali dentro, agora nem tão organizado. É um simples desabrochar... E renascer.


(Uma dica de música pra fazer ou desfazer a mala: "Stay with me", de Sam Smith, 
principalmente se estiver apaixonada)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

November rain



Mais um novembro. Mais um ano. Poucas mudanças, muito crescimento. Comecei esse texto em novembro passado. O mês se foi, o ano também. Eis-me aqui em 2015, véspera de março. Hoje é o último dia de fevereiro, que bateu asas desesperadamente. Muitos acontecimentos fizeram os dias virarem as páginas rapidamente. Bons acontecimentos, finalmente!

O blog anda abandonado, por mera falta de tempo. Tempo, que aliás, não comanda mais o meu tempo. Tenho hora pra tudo e hora pra nada. Esse nada me consome em fazer muitas coisas ao mesmo tempo, como se não houvesse mais tempo pra coisa alguma. Coisa de doido? Não, coisa de quem sempre tem algo ou alguém para fazer acontecer, junto ou separado. Adoro individualidades.

Há meses não escrevia assim, solta, sem me preocupar com as letras, com o fato de ser ou não compreendida, ó Shakespeare. Tal qual Clarice, acho tudo isso uma bobagem. Essa coisa de ser certinha e precisar ter um sentido. Bah!. Estou e sou sem sentido. Mas tenho direção e sei guiar. Às vezes, me deixo ser guiada e sinto que isso é bom. Muito bom, quando o condutor sabe levar, não tropeça, não pisa no pé.

Hoje o vento está forte. A cortina na janela atrás de mim é lançada de um lado para o outro, assim como meu pensamento, sem foco, é jogado para lá e para cá. Desde que iniciei esse texto, em novembro, já não me lembro mais qual era o objetivo dele. Não importa.

Três meses se passaram e minha alma está mais leve. Sente-se completa e sem necessidade de explicações. Apenas é o que é. E isso basta.

A chuva já escorreu pela vidraça enquanto eu almoçava com meu amor. Detalhe que deixei passar sem me questionar. Só vi o chão molhado depois de a água despencar suavemente. E secar na mesma rapidez do tempo, que agora é brisa. Amanhã poderá ser iluminado!

Eis-me aqui, tempos depois, pra dizer que sempre é tempo de dizer qualquer coisa, por mais sem sentido que seja. Sempre é bom voltar, mas é melhor continuar a estrada e seguir em frente.

Em tempo: November rain é o título dado a este post, em novembro de 2014. Já é quase março de 2015, mas alguma coisa desse vácuo do passado ainda está aqui.
 

domingo, 1 de junho de 2014

Nietzsche e Anne Frank

“Todo mundo tem dentro de si um fragmento de boas notícias. A boa notícia é que você não sabe quão extraordinário você pode ser! O quanto você pode amar! O que você pode executar! E qual é o seu potencial!”  [Anne Frank]

***


Há filmes que são digeridos facilmente. Você assiste e passa por eles indiferente. Outros, você assiste e precisa de um tempo para refletir, para trazer para dentro a história deles em você.

"Quando Nietzsche Chorou" e "O diário de Anne Frank" são completamente diferentes. Mas só no enredo. Se você analisar, os dois falam do ser humano, das suas dificuldades de relacionamento, do confinamento dentro de nós mesmos. Triste olhar para dentro e não gostar da pessoa que vê. Mas é bom mergulhar dentro de si e ver do que se é capaz, enxergar como é possível desencavar vontades e desejos em meio aos cacos da alma.

Nietzsche é clichê em seu enredo, embora seja um excelente filme sobre o que se quer da vida e o que não quer carregar sobre os ombros. Sigmund Freud tenta explicar as dores de cabeça frequentes. Mas a história verídica de Anne Frank é bárbara. Uma menina de 13 anos, presa num sótão durante dois anos, enquanto o Holocausto se desencadeia paredes afora. As ideias maduras da garota atrevida fazem-nos pensar o quão curta a vida é, o quanto deixamos de realizar o que queremos.

Em seu diário, ela debruça ligeira seus pensamentos, pois sabe que os dias são uma contagem regressiva. Em uma tão breve vida, conheceu os conflitos familiares, as dúvidas do amor, as duras lições da guerra, o desaparecimento (e a morte) dos amigos. Então, nos deixa seu diário, com uma riqueza surpreendente de maturidade. É um olhar sobre a vida de cada um!

Ela só tinha 15 anos quando foi morta na guerra da Alemanha. Era 1945. Eu não tinha nascido ainda e ela já sabia tanta coisa, em tão pouco tempo... Que bom ter deixado seus escritos.


sábado, 24 de maio de 2014

O segredo dos seus olhos

_ Preciso falar com você.
_ Vai ser complicado.
_ Eu não me importo.
(sorriso irresistível) _ Fecha a porta.

Este diálogo valeu o filme, a história de amor num filme que não é de amor, mas que retrata a leitura de um olhar. O Segredo dos Seus Olhos, recomendo!


Acho que sempre é tempo de dizer o que não foi dito...

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Because I'm Happy



Essa música marcou o mês de abril, que se foi tão rapidamente, escorrendo pelos dedos como água. Ela tocava em todos os lugares no Canadá, enquanto estive morando na casa de filipinos, por um período adorável. Nas baladas, era uma festa! Ao som dela dancei juntinho, me diverti, gargalhei com amigos, assistimos a uma apresentação de dança no gelo. É exatamente assim que ela me deixa... Happy!!! Quando começa, parece que liga um botãozinho e o corpo automaticamente se movimenta. É daquelas canções para guardar no arquivo da mente e disparar lembranças eternas.

Da mesma forma, Vancouver. Ô cidade boa e linda para morar. Cara, admito. Mas sensacional em todos os aspectos. Repleta de montanhas, parques para todos os lados, árvores (cherry blossoms, minhas preferidas), gente bonita e simpática, frio na medida certa, dias com sol, outros com chuva para andar com alguém embaixo do guarda-chuva, praia, tulipas, ursos (felizmente não topei com nenhum na rua), neve no pico das montanhas, pontes imensas sobre o rio Fraser, prédios que riscam o céu com seus reflexos prateados, esportes radicais... Difícil não gostar de algo tão diversificado, uma cidade que abre os braços para pessoas do mundo inteiro.

Amei o intercâmbio cultural, principalmente. Passaria meses estudando, se minha condição financeira permitisse. Transporte público funciona bem e não falta. Tem de tudo na cidade, até cinema que exala o cheiro das imagens ou que faz nevar (amazing!). Não há ócio. Ninguém fica parado devido à quantidade de opções de entretenimento e lazer. Os parques são imensos e a partir deles a gente se deslumbra com uma visão incrível, a pé ou de bike.

Apenas a parte gastronômica deixa a desejar. Comer algo salgado é uma missão quase impossível. Tem um Starbucks em cada esquina, e uma rede americana, chamada Tim Hourtons, também. Porém, em nenhum lugar você encontra uma opção salgada para saborear. Só doce. Meu corpo não aguentava mais tanto açúcar no sangue... Até encontrarmos um restaurante brasileiro!

Quando você viaja sozinha tem de enfrentar mais desafios do que se estivesse acompanhada. Pelo menos é assim que eu vejo. Quando alguém sentava no ônibus comigo e começava um papo de aranha pro meu lado, apenas eu tinha que me desfazer da teia, certo? Cheguei a descer um ponto antes de casa, quando um rapaz canadense começou a me assediar. Ia recorrer a quem? Ao motorista mal humorado que não me ensinou a validar o tíquete do ônibus e me mandou sentar?

Pois é... de todos os amigos que fiz durante a viagem, nenhum morava perto da minha casa, localizada a mais de 20km do centro. Então eu me aventurava sozinha. Um dia desci do trem no meio do caminho e fui passear no shopping. Na volta, entrei "de alegre" no trem errado e parei no fim do mundo. Ou melhor, na porta dos fundos do Canadá. Que desespero! Mas era um lugar tão lindo, que aproveitei para alcançar as montanhas cobertas de neve, apenas com o olhar. Pedi ajuda a uma senhora e consegui voltar sã e salva pra casa.

A experiência foi incrível porque das pequenas conquistas trouxe uma grande riqueza de conhecimento e realizações para a minha verdadeira casa. A maior lição é acreditar mais em mim e na minha capacidade. Deixei também uma riqueza por lá: amigos brasileiros e asiáticos que nunca mais esquecerei. Interessante como em pouco tempo a gente se conecta a amizades profundas. Nunca imaginei que minha melhor parceira em sala de aula fosse ser uma russa! É um bom começo para pensar em novas experiências fora do País.




     

sábado, 15 de março de 2014

Cansou de ser gato?

Sempre tive gatos. Desde pequena convivo com eles. E geralmente mais de um. Em dezembro passado, como a minha gata Sophia estava muito sozinha, e a família muito triste por conta de uma despedida, decidi pegar um filhote para animar a casa. Mas já passou pela minha cabeça um ligeiro arrependimento.

Amarelo. Nunca tive um gato amarelo. Foi isso o que pensei, quando vi o pobre coitado gastando seu estoque de miados, em volume absurdo, numa gaiola. Estava na avenida, com uma senhora que pretendia doá-lo junto com outros, não amarelos obviamente. Adotei!

Entre os nomes de famosos, como Tom, Brad e Robert, achamos que tinha cara de Tom Cruise. E então 'estreou' no mundo Tom Mestrinel, que logo ganhou vários apelidos dadas as suas travessuras. O 'melhor' deles é "Diabo Loiro". O resto é impublicável.

Acho que já dá pra ter uma noção da personalidade do meu gato amarelo, que neste momento está no chão, planejando um salto na minha estante de livros. Pronto, achou uma tomada para brincar. Se levar choque, confesso, vou achar graça. Já lavei as mãos, entreguei aos céus.

Se a Sophia pudesse falar, além de miar, diria: é insuportável!!! A família diz isso em coro.

Nunca antes na história da minha vida - só para plagiar nossa querida presidenta - tive um gato terrorista. São quase três meses em casa e quase tudo está destruído. Não sobrou um vaso de flor com terra. Cavou e fez túnel em todos eles. Quebrou louça, mordeu o rabo da minha cachorrinha, atracou os dentes no braço da minha mãe (inúmeras vezes), adotou um bicho de pelúcia com o qual briga e transporta pela casa o tempo todo.

O Tom certamente não é gato. Cansou e deixou disso. Encarnou um pitbull, talvez um urso polar e um leão-marinho. Controla a vida da minha gata e já decidiu que vai mandar no pedaço. Salta feito uma lebre. Ataca como um guepardo. Dança como um bailarino tentando fazer alongamento pelas paredes. Se contorce como se estivesse no pole dance ou no tecido acrobático.

Não é gato. Pensa que é pássaro. Voa pelas cortinas. Sobrevoa a mesa da sala, dá um rasante nas orelhas da Sophia, e também nas da minha irmã, pra alegria de todo mundo.

Há quanto tempo eu não tinha um filhote... Tão adorável!!! Quer dizer, tão encapetado!!! Tem dias em que chego a pensar que não há conserto para essa criatura. Só resta amá-lo... Quando está dormindo, claro.

Juro, minha pilha acabou. Acho que só um exorcista pra dar jeito nesse filhote de...sei lá o que.


Quem diria, hein mocinho? Andam falando mal de você...

domingo, 26 de janeiro de 2014

Minhas duas internas

Minha amiga Roberta Borges me apresentou a Madeleine Peyroux, uma cantora nascida na Georgia, e cuja cuja música me levou a um passeio de bike sob o Arco do Triunfo, em Paris. Sozinha. Engraçado como minhas "alucinações" me tornam solitária também. Não consigo projetar alguém ao meu lado. Só a sensação de andar de bike com o vento cortando o rosto já me faz feliz.

Além da música, uma frase me deu o empurrão que faltava para decidir se deixo o medo tomar conta de mim ou se me lanço de vez em mais uma aventura. "O homem não consegue descobrir novos oceanos, se não tiver coragem de perder de vista a costa." [Andre Gide]

Tão eu! Adoro perder de vista a paisagem, deixar para trás, pelo menos uma vez ao ano, meu porto seguro, e embarcar numa nova empreitada. Férias se aproximam! Planos borbulham. Mas o medo me atrapalha. Pensar demais me complica. Eis o xis da questão.

Se lança ao mar, Paula! Já estou num estágio de loucura que me dou conselho e quase aceito. Ou melhor, aceito. Não sei o que é pior. Corre atrás do sonho, Paula! A vida é breve. "A vida é só o meio entre o nascimento e a morte", já dizia Martha Medeiros, que tem me acompanhado nas últimas noites com seus textos de "A graça da coisa".

Ter frio na barriga, desafios para enfrentar e discussões internas acaloradas só apimentam a relação entre mim e mim. Sabe aquela história de que há duas pessoas dentro da gente? Então, a primeira que me habita é a mais certa da cabeça, aquela que vive no conforto da rotina e também a que mais tem medo. A outra é a mais 'cool', aquela que se entrega sem pensar, que vai adiante, com medo ou sem ele. Sou uma mistura das duas hóspedes em mim. E o atrito entre elas é perturbador, algumas vezes.

Vai, Paula! Anda logo que o ano está só começando. Sai do lugar, mulher!!!
E eu vou. Ah, essas duas me matam... Vou soprar do meu ombro a que menos me incentivar.



"Don't wait too long"
Música de Madeleine Peyroux, feita sob medida para mim


terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Meu velho ano, adeus!

Fim de ano, pauta batida. Época de balanços, de reencontrar um blog para escrever. Escrever o que mesmo? Blogs já saíram de moda, é o que temos visto. O Facebook virou Big Brother e quase ninguém espia mais os pobres blogs, já em desuso.

2013 foi o ano das redes sociais. Do exibicionismo. Das imagens de pessoas felizes, afinal, quem vai postar uma foto triste? Quem vai querer ser criticado em rede mundial? Quanto mais as pessoas se confraternizam pelas mídias sociais, mais futilidades aparecem na rede. É gente que precisa exibir o prato que come, a roupa que compra, o carro que adquire, a namorada que conquista, o restaurante em que está, o avião que vai pegar... É gente que conversa com a internet e infla como um pavão cada vez que recebe um "like".

Meu 2013 não teve nada virtual. Foi o ano mais denso da minha vida. Um ano de conquistas muito esperadas e uma despedida jamais desejada. Vida e morte me trouxeram lições e aprendizados. Foi o aniversário mais triste, o Natal de mais saudade, um ano de imagens inesquecíveis, boas e ruins.

Fiz a viagem mais longa da minha vida, em termos de distância, e a mais rica culturalmente. Sozinha, num quarto de hotel em que as pessoas não falavam minha língua. Venci o medo e foi a maior aventura desta jornada finita. A Irlanda era um sonho e fiz parte dele. Olhar as paisagens de Galway, que figuram de papel de parede neste blog, me fizeram acreditar que eu consigo, quando quero e tenho foco.

Foi um ano em que conheci pessoas maravilhosas. Reconheci as dificuldades de todas elas, assim como as minhas, e passei a admirá-las pela força de vontade de mudar, para melhor. O treinamento de neurolinguística "Você" ventilou em minha vida experiências que vou carregar para sempre. Me trouxe o perdão, a tolerância, a necessidade de identificar o que realmente tem importância e o que é irrelevante diante da vida. Coisas pequenas? Hoje sei diferenciá-las.

Uma grande amiga se revelou este ano e a pessoa que eu menos dava valor no trabalho segurou minha mão enquanto meu pai era enterrado. São coisas que mesmo no momento mais triste da vida, a gente nunca vai esquecer de quem ofereceu amparo, um ombro. Pequenos gestos mostram a grandeza das pessoas. Fazem você enxergar a pessoa que você nunca quis desvendar, talvez por orgulho ou preconceito. Naquele momento, hoje eu vejo, as pessoas que amo (e me amam) estavam ao meu lado.

Foi o ano de mais maturidade. Aquele em que colhi o que plantei. Fiz besteira, colhi sofrimento no sentido de relacionamentos. Fechei portas do coração, me abri a novas oportunidades. Com os erros, quero continuar aprendendo. Mas também quero errar menos. Deixar o certo pelo duvidoso? Lição mais do que aprendida.

Neste último dia do ano, Deus trouxe ao meu sonho o sorriso do meu pai. E eu acordei dizendo "pai", como se ele ainda estivesse ao meu lado, de camisa polo cor de rosa, jeans e óculos quadrado. Foi o melhor sorriso, o presente que faltava neste ano em que foi preciso dizer adeus. Sorrindo e com saúde. É assim que quero lembrar de meu pai. É assim que quero dizer 'até nunca mais' para este ano velho.

Amanhã é um novo dia. O primeiro de muitos que virão cheio de coisas boas! Feliz 2014!!!
Bem-vindo ANO NOVO!

No dia 21 de dezembro, o Tom chegou em casa, arrasando corações... 
Meu menino-cat!

sábado, 7 de dezembro de 2013

Nostalgia



The Love We Had - Joss Stone

sábado, 26 de outubro de 2013

Pai nosso, que estais no céu...

Um pedaço do meu sorriso morreu ontem. Era o mesmo sorriso que o dele. O mesmo nariz grande. As mesmas pernas finas que eu carrego, ainda fracas. Meu pai falava pouco, mas dizia tanto em seu silêncio...  Dias atrás teve um pesadelo. Levantou de sobressalto da cama, murmurando algo incompreensivo, uma expressão de medo e dor. Acalmou quando me viu ao pé da cama e acariciou meu rosto, meu cabelo. Não sei se ele sabia que eu era a filha, mas eu sentia que, mesmo no casulo do Alzheimer, me amava. Confiava no meu olhar.

Ah, meu pai, você era tão querido por tanta gente. Ontem mesmo, quantos abraços a gente recebeu no seu lugar, enquanto você descansava na sala Ipê Amarelo. Eu ainda tinha esperança, até perto das cinco da tarde, que você iria abrir os olhos e sorrir. Quanto egoísmo querer você por perto, quando você já estava com uma presença divina.

Eu chorei, sim, pai. Fui fraca, fiquei no chão enquanto seu corpo era levado. Mas tantas palavras amigas preencheram meu vazio, amenizaram minha dor... Quantas amigas já passaram por essa mesma angústia de perder um pai e hoje estão aí, fortes e sorrindo, carregando apenas as boas lembranças. As lágrimas secam, o amor fica enraizado aqui dentro. Daqui a pouco é primavera de novo, um sorriso vai brotar cada vez que seu rosto passar por mim.

Só tenho que te agradecer, meu anjo, por ter me ensinado todos esses anos. Deus foi bom demais por permitir nosso encontro durante todo este tempo. Foi você que me ensinou a amar, pai. E esse amor é tão imenso que vaza o peito. Vou lembrar do meu menino todo dia. Meu lindo que me ensinou a amar de duas maneiras, como pai e filho, se é que isso é possível. Meu anjo, olha pela gente! Suas meninas vão erguer a cabeça e espiar atrás das nuvens. Não é à toa que o sol brilhou forte hoje.

Fica bem, meu pai. Me perdoa por alguma coisa. Te amo, te amo, te amo, te amo...



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A minha casa

O varal lá de casa



Na minha casa o varal não é só de roupas
As pessoas não são só de lágrimas
A poesia preenche as rachaduras da parede
A alegria cimenta os tijolos
A dor é envernizada. 

Minha casa tem flores e tem espinhos
Tem alternâncias que escorrem do telhado
Entopem a calha de vida, brotam silêncio e diálogos.

No fim do dia, floresce um jardim de céu escuro sonolento
Semeado com estrelas que nem sempre brilham
Mas iluminam atrás das nuvens as asas dos anjos.

Minha casa tem magias que só a alguns seres enfeitiçam
A base da construção é edificada por amor
E as telhas são de vidro blindado

O quintal é habitado por pétalas e borboletas
O sol forra o chão, as folhas voam
A vida se delineia conforme as curvas do vento
Que ora é brisa ora tempestade ou garoa prateada.