quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O lado do sol da calçada




"Todo homem e toda mulher são generosos quando banhados de esperança. Pretendem mudar, atendem pedidos inconcebíveis, estarão flexíveis e dispostos, autocríticos e atentos. Sem esperança, ficam hostis e intratáveis, bichos com raiva, animais encurralados. 
A vida é fácil com esperança. Não tem porta fechada. É possível sair e entrar no mesmo erro. Não existe julgamento e sentença, apenas vontade de seguir em frente e procurar o lado do sol da calçada." [trecho de um belo texto de Fabrício Carpinejar]

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Gênesis no suvaco do Cristo


Há um certo tempo deixei de ser dependente de companhias. Superei o medo de viajar sozinha e, agora, vou a qualquer lugar sem precisar de ninguém. Descobri o quanto a minha companhia pode ser agradável - sem soar arrogante este pensamento, por favor. Gosto de estar sozinha. Seja numa multidão ou sozinha mesmo, num hotel ou numa cidade em que ninguém me conhece. A sensação é de que eu controlo o relógio e não o contrário. Como disse uma amiga, se você estiver bem, é uma delícia estar single. Mas esteja depressiva pra ver... Não é o meu caso. Thanks, God.

Fiz um bate e volta no Rio, no último fim de semana. Ninguém quis ir. Lá fomos nós, a Paula e a Fernanda, sentadas na poltrona de número 21, embaixo do ar-condicionado do Cometa, que não me deixou dormir de frio durante a madrugada. Beleza. Apenas um detalhe.

Desta vez, conheci um Rio que nunca tinha visto. Talvez não tivesse olhado direito das últimas vezes. Sozinha há tempo pra tudo. Pra se demorar no banho, pra estender o olhar pela orla de Copacabana, pela multidão caminhando no domingo de manhã na avenida Atlântica, para as flores nas ruas, para a Lagoa Rodrigo de Freitas, para o nascer e o pôr do sol... Há tempo para ficar na cama até quando eu achar que devo (e mereço) e até para reparar no suvaco do Cristo. Pois é.

No caminho para o Jardim Botânico, minha amiga que está morando no Rio me atentou para este lado do Corcovado. Nunca tinha reparado que o Botânico fica embaixo do suvaco do Cristo. E que, por este motivo, há um bloco de Carnaval no bairro com este mesmo nome: "Suvaco de Cristo". Genial.

Fui ao Rio especialmente para ver a exposição do Sebastião Salgado, que valeu cada segundo desta minha vida. O cara não é fotógrafo. É artista. É arte na mais pura essência o que eu vejo nas imagens produzidas por ele. Gênesis é a exposição que mais me encantou até hoje. Foi vista por mais de 70 mil pessoas no Rio - acabou ontem a mostra - e quero ver de novo em São Paulo, já que ela desembarca na Capital a partir do dia 5 de setembro.

São imagens impressionantes - não tanto pela captura - mas pela nuance das cores e sombras, que formam outras imagens dentro da mesma foto. É isso. Eu vejo mais do que uma fotografia numa mesma imagem. A sombra na cauda do crocodilo se transforma em um barco; os esquimós percorrendo a neve viram rastro de formiga; os Xingus se transformam em cenas ancestrais, numa exposição contemporânea.

Sete anos. Esse foi o tempo que Sebastião Salgado seguiu fazendo suas expedições pelo mundo para organizar Gênesis. Fico pensando no trabalho de seleção das imagens para a mostra, que conta com apenas 245 fotografias.

Numa entrevista para a Globo News, a repórter fez uma pergunta interessante ao fotógrafo. "Se Sebastião Salgado estivesse perdendo a visão, qual imagem gostaria de preservar na memória?" Ele respondeu com outra pergunta: "Se você tivesse vários filhos, e fosse perder a visão, qual gostaria de ter em mente?"

A exposição é isso. É um universo todo, por completo. Nada ali é visto de forma individual ou separada. É o universo brilhante de Sebastião Salgado, e também o nosso, que pouco gente tem a oportunidade de ver ou explorar.

Sebastião Salgado, um fenômeno na fotografia preta e branca

domingo, 11 de agosto de 2013

Antes de qualquer coisa...






Três filmes*, uma história. 

O trem desliza pelo trilho, como as horas se dissipam pelos dias. O olhar de Jesse atravessa a janela e se perde na paisagem, sem enxergar coisa alguma, além do fora que acabara de levar da namorada. Em poucos minutos estaria em Viena, sem destino nem companhia.

Do outro lado do vagão está Céline, que finge ler um livro enquanto um casal briga na poltrona ao lado. Céline muda de banco, senta-se perto de Jesse e, a partir daquele instante, o trem conduz pelas curvas da vida o destino de duas pessoas, cujo encontro quebrará para sempre a armadura de seus corpos.

A ousadia deu um passo adiante e Céline desembarcou em Viena para passar um dia com o desconhecido que despertara curiosidade e desejo. Entre um diálogo e outro, viram a noite virar dia e se conectaram de uma forma que nenhum dos dois jamais esperava. Um dia apenas. Era o que ofertaram um ao outro, antes do amanhecer e ele partir para os Estados Unidos e ela para Paris.

Ainda na estação de trem, marcaram um encontro dali a seis meses, mas passaram-se 9 anos até seus olhares se cruzarem novamente, numa livraria, onde Jesse lançava seu livro para contar essa história. Ou a história deles dois.

Foram 9 anos imaginando o que teria acontecido se o encontro na estação tivesse se concretizado. Jesse foi a Viena naquele dia. Céline foi ao enterro da avó. E nunca mais tiveram notícias um do outro, até o lançamento do livro, em Paris.

Ali se descobriram ainda conectados e não deixaram brechas entre os diálogos. Ele estava casado e tinha um filho. Ela, um namorado distante, que fotografava guerras.

Caminharam por esquinas e becos da Cidade Luz, entraram num café e logo depois em um barco. Os ventos que sopravam do Rio Sena trouxeram à tona a química que envolvia os dois, como se nunca tivessem se separado.

Então, antes do pôr do sol, sem nenhum selar de lábios,  eles se entregam ao desejo de simplesmente estarem juntos. Quiçá para sempre.

Mas para Céline, o amor parece ter data de validade. E começam a discutir as rachaduras do relacionamento na Grécia, anos depois, já com duas filhas - três com o pequeno dele. Em viagem de férias pelas ruínas à margem da estrada, eles deixam vestígios de que o tempo desgasta a relação e pode devastar diálogos inconsistentes para dar lugar à maturidade e seus devaneios.

O encontro com amigos sintetiza uma bela reflexão sobre a vida e o que realmente importa.
Um pôr do sol, que ora está lá e um segundo depois não está mais, representa o quanto do tempo se passa em poucos instantes e as horas escuras que virão depois.

O que fazer depois da fuga do sol cabe a Jesse e Céline decidir. E nem sempre a melhor das escolhas é eleita. Antes da meia-noite, eles despejam sobre a bagunça do lençol as rugas do tempo, as mágoas, as frustrações. Aquecem a cama para depois esfriar. E depois esquentar de novo, mas só depois da meia-noite, quando as loucuras de Céline e as verdades doloridas de Jesse recebem doses intensas de amor.


* Antes de qualquer (dispensável) explicação, Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia-Noite completam a trilogia do diretor Richard Linklater. Três filmes protagonizados pelos mesmos atores, Julie Delpy e Ethan Hawke, os adoráveis Céline e Jesse, que deixam subentendido o quanto da vida ainda há para explorar. Juntos. Ou não.


sábado, 10 de agosto de 2013

A menina quebrada


"Escrevo porque a vida me dói, porque não seria capaz de viver sem transformar dor em palavra escrita. Mas não é só dor o que vejo no mundo. É também delicadeza, uma abissal delicadeza, e é com ela que alimento a minha fome. Desde pequena sou uma olhadeira e uma escutadeira, raramente uma faladeira..." (Eliane Brum)


Esta semana descarrilei. Dissiparam-se pedaços por todos os lados. Noites maldormidas. Dias infinitamente lentos. Cacos espalhados. Adoeci e fiquei desencaixada do corpo, distanciada da alma. No meio disso tudo, esqueci o quanto é bom cair. Porque a gente sabe o que vem depois de uma queda.

Das coisas que li, "A menina quebrada", de Eliane Brum, me trouxe certo encantamento, ou melhor, uma porção de identificação. Relata o espanto de uma garotinha minúscula em seu tamanho, que vê a amiga com a perna engessada e, no conceito mais do que certo dela, a colega quebrou. Então, entra a analogia de todas as vezes em que a gente se quebra na vida.

"As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral, contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. (...) Ser forte, Catarina, não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado".

Ali, quebrada, estava eu, diante da fragilidade de uma menina. Assim como ela não entendia que as pessoas quebram, eu não compreendia porque estava despedaçada. Ninguém, além de mim, foi responsável por esse dano emocional. Simplesmente me deixei quebrar. Logo eu, que sou mulher forte aos olhos dos outros. Logo eu, que sou a mais frágil sob minha própria perspectiva embaçada e deturpada.

Quebrei sem motivos aparentes. Quebrei por fora para reconstruir por dentro a vida que sobrou em mim.