Três filmes*, uma história.
O trem desliza pelo trilho, como as horas se dissipam pelos dias. O olhar de Jesse atravessa a janela e se perde na paisagem, sem enxergar coisa alguma, além do fora que acabara de levar da namorada. Em poucos minutos estaria em Viena, sem destino nem companhia.
Do outro lado do vagão está Céline, que finge ler um livro enquanto um casal briga na poltrona ao lado. Céline muda de banco, senta-se perto de Jesse e, a partir daquele instante, o trem conduz pelas curvas da vida o destino de duas pessoas, cujo encontro quebrará para sempre a armadura de seus corpos.
A ousadia deu um passo adiante e Céline desembarcou em Viena para passar um dia com o desconhecido que despertara curiosidade e desejo. Entre um diálogo e outro, viram a noite virar dia e se conectaram de uma forma que nenhum dos dois jamais esperava. Um dia apenas. Era o que ofertaram um ao outro,
antes do amanhecer e ele partir para os Estados Unidos e ela para Paris.
Ainda na estação de trem, marcaram um encontro dali a seis meses, mas passaram-se 9 anos até seus olhares se cruzarem novamente, numa livraria, onde Jesse lançava seu livro para contar essa história. Ou a história deles dois.
Foram 9 anos imaginando o que teria acontecido se o encontro na estação tivesse se concretizado. Jesse foi a Viena naquele dia. Céline foi ao enterro da avó. E nunca mais tiveram notícias um do outro, até o lançamento do livro, em Paris.
Ali se descobriram ainda conectados e não deixaram brechas entre os diálogos. Ele estava casado e tinha um filho. Ela, um namorado distante, que fotografava guerras.
Caminharam por esquinas e becos da Cidade Luz, entraram num café e logo depois em um barco. Os ventos que sopravam do Rio Sena trouxeram à tona a química que envolvia os dois, como se nunca tivessem se separado.
Então,
antes do pôr do sol, sem nenhum selar de lábios, eles se entregam ao desejo de simplesmente estarem juntos. Quiçá para sempre.
Mas para Céline, o amor parece ter data de validade. E começam a discutir as rachaduras do relacionamento na Grécia, anos depois, já com duas filhas - três com o pequeno dele. Em viagem de férias pelas ruínas à margem da estrada, eles deixam vestígios de que o tempo desgasta a relação e pode devastar diálogos inconsistentes para dar lugar à maturidade e seus devaneios.
O encontro com amigos sintetiza uma bela reflexão sobre a vida e o que realmente importa.
Um pôr do sol, que ora está lá e um segundo depois não está mais, representa o quanto do tempo se passa em poucos instantes e as horas escuras que virão depois.
O que fazer depois da fuga do sol cabe a Jesse e Céline decidir. E nem sempre a melhor das escolhas é eleita.
Antes da meia-noite, eles despejam sobre a bagunça do lençol as rugas do tempo, as mágoas, as frustrações. Aquecem a cama para depois esfriar. E depois esquentar de novo, mas só depois da meia-noite, quando as loucuras de Céline e as verdades doloridas de Jesse recebem doses intensas de amor.
* Antes de qualquer (dispensável) explicação, Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia-Noite completam a trilogia do diretor Richard Linklater. Três filmes protagonizados pelos mesmos atores, Julie Delpy e Ethan Hawke, os adoráveis Céline e Jesse, que deixam subentendido o quanto da vida ainda há para explorar. Juntos. Ou não.