Mais de 30 graus. Pra mim, é o inferno na alma do tempo. Vendaval dos horrores em São Paulo. Barra Funda. Um misto de gente. Olho para o campus da Unesp e invejo os estudantes deitados sob a sombra das árvores. Hora da sesta. Só pode! Minha barriga ronca. Tinha visto algo cair no estômago às 7h30 e, depois, nada mais. Quase duas da tarde e minha carona não aparece. Calma, Paula. Não estressa. Você só está com calor, fome e esperando alguém que não chega nunca, embora dissesse que "estava a caminho". Quase duas e trinta e a pessoa admite: tá perdida; precisa do endereço do terminal. Minha barriga griiiiita! E o casal debaixo da árvore, ali no campus, se beija loucamente no chão. Eu desidrato...
O mendigo passa com uma tralha nas costas. Pede ajuda. Não tenho. Diz que eu "enfeito" a rua. Tá, antes fosse. Eu devia ter mais fome do que ele. Meus cabelos voam, minha saia baila. O vendaval me enche de terra dos pés à cabeça. Um cisco invade meu olho. Um elefante, penso eu. Lacrimejo inteira. De fome, de raiva, de calor. Mais de 60 dias sem chuva.
A morena bonitona, de shortinho, arranca olhares de todos os homens. Minutos depois ela desfila pela avenida novamente, acompanhada de dois travecos, com os seios fartos à mostra. Ouço a voz grave da morena.
Ela era
Ele. Já nem consigo mais ficar espantada. Se todos aqueles homens que investiram olhares nela soubessem disso...
Minha carona chega. Não digo uma palavra do turbilhão que habita em mim. E o estresse se instala entre nós, porque a pessoa, até então perdida na cidade onde nasceu, também está aparentemente com raiva. Era tudo o que eu precisava!!! Por que foi a São Paulo, Paula? Não tinha sanidade mental, é o que penso. Mas depois de algo cair no estômago, o mundo fica colorido de novo, o vendaval se transforma em brisa, e a água que não caía do céu há mais de 60 dias refresca o pensamento.
Reparo nos ipês amarelos e nas primaveras. Elas, sim, enfeitam as ruas. Lembro que ainda é inverno -desencaixado da lógica do tempo. Lembro em seguida que a primavera chega em poucos dias. Venha logo, sua linda! Me faça botar os pensamentos no lugar e decidir, de vez, se devo ou não voltar a São Paulo e tudo o mais que isso implica. São mudanças demais pra uma só cabeça! E eu me sinto completamente torta e suscetível no meio do vendaval.