É o meu livro que se iniciou 39 anos antes deste momento. É uma obra, ainda bem, inacabada. Depois de concluir este texto terei mais uma página para virar e uma porção de coisas para agregar. Assim são meus dias. Aprendo. Agrego. Acolho. Concretizo. Amadureço. Erro. Acerto. Absorvo. Observo. Silencio.
Difícil passar pelo tempo sem perceber suas marcas, suas expressões talhadas numa espécie humana de ampulheta. O corpo muda. A autoestima declina. A pressa de viver tudo o que não vivi aumenta. A impaciência toma conta. Não tolero coisas que antes eu tolerava (mas deixo pra lá algumas vezes).
Os sonhos ficam mais próximos. O peso na balança sobe em disparada, feito o dólar. O bolso esvazia em função da ansiedade. O cabelo perde a cor, o brilho. A música se torna mais lenta. O coração acalma e acelera ao mesmo tempo. A alma flutua em busca de perspectivas. As viagens impulsionam e dão fôlego à coleção de dias trabalhados sem folgar.
A idade é um ir constante. É aprendizado. É letra de canção clichê, sussurrando aos ouvidos que "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia." É um enxergar-se de outra forma. Já não vejo mais uma menina no espelho. Vislumbro uma mulher. Bem mais adulta do que aquela que eu gostaria de ver. Velha. Chata às vezes. Feliz e satisfeita em outras ocasiões. Perfeccionista. Frustrada com o que não conquistou ainda. Com o que deixou de falar. Mas esperançosa diante de uma porta aberta a infinitas possibilidades. Não deu certo agora? Vai dar amanhã. É assim que oxigeno meu cérebro. Puf! Tem que dar certo!!! Este é o lema que carrego na bagagem.
São quase quatro décadas de existência. Tenho orgulho de olhar para trás e rever cenários de conquistas, de crises, de alegrias, tristezas, dores e alívios. De cultivo à vida. De superação. De saudades do meu pai. Do riso dele. Da bronca. Da cara feia. Do amor que transbordava. E ainda permanece. Dessas coisas entre o céu e a terra que arfam mistério.
O modo de encarar a travessia muda com o tempo. A ponte se torna mais estreita, porém, mais empolgante. Espio o despencar de uma folha da árvore. Ela flutua ao vento, dança seu balé de alguns segundos, e tudo termina ao forrar o chão. Se colaborou para render bons frutos à árvore da vida, no ano seguinte haverá mais folhas pincelando cores à paisagem. É um cenário novo que se instaura a cada dia. Olhe pela janela.

2 comentários:
Parabéns por este lindo texto minha querida sobrinha Nanda. O tio o chamaria de uma prosa poética. Mas como tem muito estilo e técnica, está acima de simplesmente isso. Adorei como sempre tudo que escreve. Obrigado querida por valorizar meu singelo blog, postando por aqui suas peças literárias imensamente lindas. Peço que o faça regularmente, se não for pedir muito. Um beijo e um abraço de seus Tios
Meu querido tio Mauro! Quanta saudade de vocês...
Adorei sua visita por aqui e seu percorrer de olhos por minhas singelas letras. Obrigada pelo carinho de sempre! Um beijo meu e de todos em casa.
Postar um comentário