quinta-feira, 31 de março de 2011

Sem som

A buzina do meu carro queimou há cerca de dois anos. Não consertei. E isso me trouxe o lado bom do silêncio no trânsito e também o lado desesperador de quem precisa avisar um motorista desatento. O bom da coisa é ficar mais paciente. Muito mais paciente. Façam a "caca" que for na minha frente, não buzino. Nem gesticulo; me controlo; respiro fundo. Também não posso buzinar para pedestres que insistem em atravessar na nossa preferencial. Mas tudo bem. Já me acostumei. Ando mais devagar.

O fato é que, em algumas circunstâncias, a buzina me faz falta. Diversas vezes alguns motoristas deram marcha a ré sem perceber que o meu carro estava atrás, sendo guiado por uma motorista  em pânico, sem nenhuma espécie de sonorizador, a não ser uma voz fraca. O grito, nesse caso, é quase inaudível quando preciso dizer "hei, estou aqui!". Por sorte, ou habilidade em também dar marcha a ré agilmente, ninguém me acertou até hoje. E também não acertei ninguém.

O terceiro aspecto é o cumprimento. Tem sempre alguém que te encontra no trânsito e buzina insistentemente até você cumprimentá-lo. Eu até aceno, mas não buzino. Na hora de dizer tchau pra alguém que está no carro de trás, também não tenho como sonorizar minha despedida. Aí, sim, gesticulo. Lá vai minha mão para fora do carro balançando no ar.

Não pretendo consertar a buzina. Imagino que se todos os carros fossem desprovidos dessa ferramenta, o trânsito seria menos "nervoso". Todo mundo respeitaria mais o pedestre, teria mais prudência na direção e também mais paciência com os outros motoristas. Além do mais, contribuiríamos para a redução da poluição sonora. Ou talvez não. Os mais ignorantes sairiam de seus carros e armariam um ringue de luta pelas ruas.

As pessoas me perguntam como aguentei, e aguento, ficar tanto tempo sem buzina. Simples. A gente acostuma com novas situações e se adapta a elas.  Portanto, se um dia me encontrar guiando por aí e eu não buzinar pra você, não se sinta ignorado(a). Gosto do silêncio. Sirene, pra mim, é só o da ambulância.

Ah, e odeio os vigilantes noturnos que buzinam para todos que encontram pela rua.

segunda-feira, 28 de março de 2011

VIPs

Sem nada programado, sem nada pra fazer, assisti VIPs no cinema, sem saber a história, sem ouvir as críticas, sem nenhuma intenção. Quando a gente vê Wagner Moura no elenco, logo espera que seja um bom filme, um bom roteiro, uma boa história. A história até que é boa, já que o protagonista assume a identidade de várias pessoas, querendo esconder a sua própria. Wagner é Marcelo, e Marcelo é muitos: Carrera, Henrique Constantino, Dumont, líder do PCC...

Ele simplesmente vive a vida de outras pessoas, acreditando ser elas. E com muita habilidade, engana a todos com seus golpes de malandro. Frequenta altas festas, pilota jatos e pequenos aviões, alça voos com suas manobras de "distúrbios da identidade". 

Dirigida por Toniko Melo, a produção nacional é inspirada no livro "Vips - Histórias reais de um mentiroso", de Mariana Caltabiano. Ela teria mantido conversas com o golpista em questão durante um ano, período em que esteve preso, e o resultado foi o livro, que também saltou para a tela do cinema.

A história é interessante. Mas não é um filme que eu veria de novo. Talvez eu leia o livro, pra ver se é um pouco melhor.


Na cena, Wagner Moura encarna Dumont

sábado, 26 de março de 2011

Quase memória

Ao passar pela recepção de um hotel, onde almoça todos os dias, o recepcionista anuncia que há uma entrega. Deposita em suas mãos um embrulho, delicadamente fechado com um barbante. Reconhece a letra e também o nó no barbante. Era de seu pai. Não seria estranho receber a entrega naquele dia, se seu pai não tivesse morrido há 10 anos.

Em resumo, esse é o novelo que se desenrola no livro "Quase Memória", de Carlos Heitor Cony, que traça as lembranças do pai a partir do momento em que recebe o embrulho. E o que tem lá dentro ele deve revelar no final do livro, pois cheguei à metade hoje e ele ainda não contou o que é.

A história cheira bem como os lírios brancos que enfeitam minha sala - entrega que recebi esta semana, da mesma pessoa que me deu o livro em dezembro, com um cartão adorável. "Para a menina dos olhos de garoa. Este é um livro bonito. Para os que amam o pai, ainda mais", diz o verso do cartão.

E lendo as páginas de "Quase Memória" fiquei admirada, cheguei a sentir inveja do quanto Cony conhecia o pai, seus trejeitos, seu modo de escrever, de aparecer numa situação em que precisava de ajuda. Percebo que só hoje, depois de tantos anos, conheço o meu pai. Sei o que significa cada olhar, cada suspiro, cada gesto, sorriso ou cara fechada. Sei os horários em que ele vai ao banheiro; a hora em que quer sair de casa; o momento que quer um beijo meu; a hora em que se sentará ao meu lado. Sei quando vai surtar, ficar com raiva, agredir.

Meu pai quase não fala mais, mas o corpo é um conjunto de sons que eu aprendi a ouvir, interpretar e compreender. Senti inveja do Cony quando diz que o pai gostava de manga e que aquele embrulho cheirava manga. Ele lembra que o pai dizia, um dia, ter sido escoteiro. Portanto, o nó no barbante era coisa de especialista. Meu pai adora banana e só de uns anos para cá eu fiz essa descoberta. Meu pai sempre foi detalhista com as coisas, nunca gostou de objetos fora de lugar, e só agora percebo com clareza suas manias, que, desafiando o Alzheimer, permanecem.

Senti inveja do Cony que recebeu um embrulho, uma carta do pai. Lá estava seu nome em letras miúdas e caprichadas, como nunca fez meu pai para mim. Faltou oportunidade e talvez até intimidade 'nos anos mais antigos do passado'. Poderíamos ter conversado mais, ter descoberto mais coisas sobre nós dois. Mas hoje meu pai é outro e eu sei tudo dele. Se conseguisse escrever, tenho certeza que faria uma bela carta para mim. Assim como eu faço para ele, sem esperar nada em troca.


"Ao se despedir dos colegas, não estava carregando nada. Nenhum sinal de embrulho. Tampouco me comunicou que o havia retirado do armário. (...) Ele estava, então, com 61, 62 anos no máximo. Viveu até os 91. Nunca mais me falou do embrulho. Dez anos depois de sua morte, aqui está o embrulho. Talvez não seja o mesmo, impossível que seja o mesmo. Agora, tudo está ficando possível"

quarta-feira, 23 de março de 2011

O Renato

Há muito tempo eu e minha amiga Vic não pegávamos um ônibus juntas. Desde a época da faculdade, talvez. E esta semana, em que as duas estão de férias, fomos a São Paulo andar à toa pelo centro velho da Capital. No ônibus, demos de cara com o Renato. Pô, o Renato!!! É pra ele que a gente canta um refrão de música brega há vários anos (mais de 10!) e pra ele continuamos cantando, desde a época da faculdade também, quando o conhecemos. É o famoso Renato, que nossas amigas em comum conhecem pela canção, mas não o Renato de fato.  E eis que ele comprou o assento da nossa frente e, claro, cantamos o refrão pra ele, como nos velhos tempos.

"Fica dentro do meu peito sempre uma saudade... saudadeee
Só pensando no seu jeito eu amo de verdade... verdadeee
E quando o silêncio vem é teu nome que eu chamo... Renatuuuuuhh"

Então ele perguntou se, com o passar dos anos, a gente não havia mudado o refrão, ou o nome, dependendo das circunstâncias. Nããão! A gente mudou o cabelo, mas não a música! O Renato é insubstituível na letra que se eternizou na voz de Alexandre Pires e, depois, na de Alcione.

Hoje (ontem e sempre) o Renato gosta de rock. É vocalista de uma banda do gênero. Mas ontem, ele ficou com o refrão de um pagode na cabeça. Afinal, há dez anos (ou mais!) a gente não cantava pra ele. Há dez anos não conversávamos com o Renato-reencontrado. E certas coisas, nunca mudam!

Eis o lendário Renato, comigo e com a Vic, no Terminal Tietê



sábado, 19 de março de 2011

Uma semana excepcional

"A nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda" [Confúcio]



Nunca senti tanto a presença de Deus ou de qualquer outra força/energia, como esta semana, que acaba neste sábado e é meu primeiro dia de férias. Aconteceram coisas muito estranhas, como sonhar que recebia um buquê de flores e chegar ao trabalho, no mesmo dia, e encontrar o buquê (exatamente como o do sonho) na portaria, pra mim. Não sabia se ficava mais surpresa por receber as flores ou por causa do sonho.

Uma pessoa, enviada por alguém lá em cima, apareceu do meu lado na hora certa, no momento certo, e disse o que faltava para encaixar um quebra-cabeças, momentos antes de eu quase abandonar nove anos de trabalho na mesma empresa. Essa pessoa me abriu os olhos e também me mostrou que dizer palavras de "cabeça quente" poderia me trazer arrependimento mais tarde.

Bom, a "sensibilidade" continuou semana adentro. Uma amiga veio me contar que sonhou comigo. Disse que eu jogava flores para ela, num lugar lindo. Foi um dia depois de eu ter recebido as minhas flores.

A carta, que seguia para minha irmã na Alemanha, há mais de um mês, chegou no mesmo dia em que houve o desfecho de tudo o que eu relatava naquelas linhas, que atravessaram o Atlântico, com um único objetivo: esquecer tudo o que estava escrito lá, além de mandar pra longe aquelas palavras carregadas de um sentimento insano, que brotou no peito sem pedir licença.

Minha irmã também ligou num momento crucial, em que eu estava na igreja pedindo forças pra Deus me ajudar. Eu sei que foi Ele quem soprou no ouvido dela as palavras que eu precisava ouvir. "Engole o teu orgulho e não faz besteira! Mostre que está chateada, mas levanta a cabeça depois".

Bom, uma semana como esta não pode ser ignorada, porque foi simplesmente única e excepcional. Aconteceu muita coisa boa e uma ruim, que servirá de aprendizado para o resto da vida. Finalmente as férias chegaram e, como disse uma amiga, vou literalmente esfriar minha cabeça na viagem. Os glaciares da Patagônia que me aguardem!

segunda-feira, 14 de março de 2011

Fora de mim

"Amamos A, amamos B, amamos C, e por alguns nem era amor, e sim entusiasmo, e sabe-se lá de quantos entusiasmos somos capazes. Melhor desse jeito, amar com movimento, amar com todas as nossas capacidades, amores pequenos, amores tortos, amores retos, amores para sempre, até segunda ordem (...)"



Sentei na cama e devorei. Foi assim, num instante, que concluí a leitura de "Fora de mim", mais um livro da Martha Medeiros, que continua sendo minha cronista predileta. Estava passando pela prateleira de um hiperrmercado, quando esse título me saltou aos olhos. Fora de mim. Era como me sentia. Daí vi a autora, a Martha. Só podia ser ela. Sempre me surpreendendo.

É boa a beça a leitura, pra quem está fora de si. Ali está o lado Clarice Lispector de Martha. Está a insanidade de "Água Viva", de quem conversa consigo mesmo, sem se importar se o outro vai compreender ou não. Mas geralmente quando duas pessoas estão fora de si, no caso leitor e autor, eles se entendem, se completam. Por isso a leitura foi tão interessante. De tão fora de mim, virei a última página e me contive para não voltar ao início e ler tudo de novo. Maluquices à parte... Mas eu vou ler de novo, sim.

E aqui fica um trecho - a essência do livro - que é perder pra depois ganhar, dois ingredientes principais da vida.

"Doeu perder você. É uma dor tão recorrente na vida de tantas mulheres e tantos homens, é assunto tão reprisado em revistas, é um sofrimento tão clássico e tão narrado em livros, filmes e canções, que mesmo que eu não lembrasse, lembrariam por mim. É uma dor que se externa. Uma dor que se chora, que se berra, que se reclama. Uma dor que tentamos compreender em voz alta, uma dor que levamos para os consultórios dos analistas, uma dor que carregamos para mesas de bar, e que vem junto também para a solidão da nossa cama, para o escuro do quarto, onde permitimos que ela transborde sem domínio e sem verbo. A dor massacrante do abandono, da falta de telefonemas, da falta de beijos, da falta de confidências. No entanto, perde-se o homem, perde-se a mulher, mas o amor ainda está ali, mesmo sendo o deflagrador do vazio. Por estranho que pareça, há uma sensação de pertencimento, algo ainda está conosco. A saudade é uma presença".

quarta-feira, 9 de março de 2011

Bons ventos

Março começou e nenhuma palavra se aproximou do blog. A blogueira vai tirar férias neste mês e já parece estar descansando, por isso, abandonou a escrita. Ela pediu para usar um bordão besta, bem batido: o ano começa após o Carnaval. Portanto, Palavras ao Vento pode deixar de ser brisa e passar a ser tempestade a partir de agora.

Não é uma promessa. Apenas uma tentativa de ela se restabelecer, ajeitar a alma e seguir um novo caminho. Ela sempre diz que, nós mulheres, temos habilidade para ser várias ao mesmo tempo. Mas, acima de tudo, temos condições de se reerguer como ninguém; se recriar; se reinventar. E após o período de festas, que para ela foi uma tranquilidade tamanha, é tempo disso tudo.

A blogueira não está sofrendo por amor, antes que alguém possa pensar nesta possibilidade. Também não é uma desilusão. O que posso dizer é que ela anda numa agitação de sentimentos que acabou se perdendo nos últimos dias, quiçá meses. Agora está tudo no lugar, se encaixando de novo.

Há pessoas que passam por aqui e dizem à blogueira o que "sentem" dela. Ultimamente, os leitores dizem que a notam meio triste ou até apaixonada. Pois eu revelo um segredo: ela tem tudo, menos tristeza neste momento. Ela está bem feliz e por vários motivos. O principal deles é a saúde do pai, que passa por uma das melhores fases do Alzheimer. Recobrar um pouco da consciência, lançar-lhe um beijo ao sair para o trabalho ou rir à toa são coisas que ela observa no pai e que não têm preço.

A felicidade se esconde nas pequenas coisas. Em coisas muito simples, muito leves, como os versos de Fernando Pessoa: “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”.

Hoje ela ouviu o vento passar. Passou ligeiro por uma janela e abriu outra. Bons ventos se aproximam! Sinal de alerta para uma chuva de otimismo.