domingo, 29 de janeiro de 2012

Raciocínio Lógico

"Até onde posso vou deixando o melhor de mim.
Se alguém não viu, foi porque não me sentiu com o coração"
[Clarice Lispector]

Os exercícios de raciocínio lógico, para mim, não têm lógica. Eles até teriam, talvez, se eu tivesse mais tempo para pensar sobre eles. Mas analise a situação: você está com a prova na mão, cansada dos exercícios de interpretação de texto, gramática e, de repente, aparece o enunciado de um exercício que só tem números numa sequência maluca, sem nexo. Daí, a pergunta: qual é o próximo número da sequência? Pô, eu vou saber?! Pra mim realmente não tem lógica. Hoje eu estava persistente. Não desisti! Fiquei travando uma luta com os neurônios e acho que até acertei algumas "lógicas" - até então sem lógica.

Quem presta concurso público sabe o quanto é chata essa vida. Desgastante, eu diria. Mas vai que... Nunca se sabe! Uma hora dá certo. Fiquei pensando na prova de hoje se tudo aquilo servia para alguma coisa [60 questões gigantescas de múltipla escolha e mais três discursivas, que eu pouco imaginava as respostas]. Por exemplo: mesóclise, ênclise, próclise, denotação, conotação, advérbios, conjunções, interjeições, paronímias, sinonímias, homônimos perfeitos... Onde a gente usa isso? Escrevendo um texto jornalístico?

Olha, por que os concursos não avaliam nossa experiência de vida? Já pensou uma prova que avaliasse o seu coração? Quanta felicidade, decepção ou tristeza já teve? Quantas vezes chorou, sorriu, calou, ouviu...? Quando foi que você se saiu bem em determinada situação? Quando se deu mal? O que aprendeu até hoje? O que não faria de novo? O que faria novamente? Quais pessoas elegeria para passar o resto da vida no seu coração? Quais não entrariam nele? Qual é o seu objetivo? Puxa... Tão mais fácil justificar essas questões... Isso, pra mim, é raciocínio lógico.

Não me interessa saber que X é Y, nem todo Y é Z e nenhum Z é X [uma das questões pra afirmar o que seria correto]. É.. Clarice, até onde pude, deixei o melhor de mim. Mas ninguém quis sentir o meu coração.  


domingo, 22 de janeiro de 2012

Uma pra animar, outra pra pensar

David Guetta & Usher - Without You

Coldplay - Paradise


sábado, 21 de janeiro de 2012

Ela me perseguindo de novo!

Meu cabeleireiro tinha a seguinte - e complexa - missão hoje: tirar essa minha cara de Monalisa! E sabe aquele reparador de pontas de silicone, que se chama Monalisa? Pelo amor de Deus, não passe isso no meu cabelo!!! As coisas quase deram certo. O cabelo foi repicado, mas o "quê" daquela pintura enigmática do Leonardo Da Vinci, sei lá, acho que permanece na opinião de alguns.

Ô perseguição sem fim! Estava eu, sentada e tranquila na festa de casamento de minha amiga, quando se aproximou um rapaz e disse, sabe o que?
_ Você se parece com a Monalisa.
_Aghrrrrrr!!!!
Não bastava o ex-prefeito desta pacata cidade dizer que também me acha parecida com essa mulher... Agora, de uns anos pra cá, outras pessoas vêm encontrando semelhanças. Puxa vida, não quero ser loira de novo. Quero ter a cor do meu cabelo mesmo. Posso? A Monalisa é quem deve mudar a cor das madeixas. Afinal, tantos anos com o mesmo visual. Fala sério!

Só para tirar a teima, my sister andou clicando esta blogueira que vos escreve. Meu cabeleireiro teve lá a sua missão. Tá, não mudou quase nada. Mas será que eu tenho algo em comum com aquela mulher da famosa pintura?! Olha, se meu retrato fosse tão valioso quanto o dela, isso sim seria bom. E desvendar meu olhar, admito, é bem mais fácil do vocês imaginam.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Inversão da vida

Ele me fuzilou com os olhos esta semana. Igualzinho quando eu fazia algo errado na infância ou, já na adolescência, pedia para ir à discoteca com as amigas. Nossa, parecia que o mundo ia acabar. Um olhar dizia mil e uma palavras. E ele sempre dizia não. E eu sempre insistia no sim.

Sentado à mesa da cozinha, com a cabeça na lua, começou a jogar a comida no chão.
_Pai, não pode fazer isso! _ alertei, com tom de reprovação.

Se ele ainda falasse, teria dito alguns palavrões - o que deu perfeitamente para interpretar em seu olhar faiscante. Levantou e empurrou a cadeira sobre a mesa. Deixou a comida. Fez birra.

"Não pode" é a frase que as crianças mais escutam. Meu pai, que agora voltou à infância, também. Não pode tirar a roupa molhada do varal, não pode vestir a roupa molhada, não pode colocar o copo dentro do prato, não pode tirar a sujeira do carro com as mãos, não pode bater nos gatos (nem em pessoas), não pode abrir o cadeado do portão com uma colher, não pode chutar o banco do carro, não pode pisar no cocô... Não poderia o Alzheimer te pegar, meu pai.

Hoje ele completa 67 anos de vida. Sete dentro de uma criança, porém forte como o grande homem que é. Me disse "bom dia" nesta manhã - há muito tempo não pronunciava uma palavra. Me fez sorrir. Me fez feliz no dia do seu aniversário, uma data que ele não tem mais capacidade de lembrar. Mas a gente nunca esquece! E meu abraço foi tão forte que quase o esmagou. Aí veio aquele olhar fuzilante de novo...
Ah, pai, hoje não! Não pode fazer isso.


Pode sim, pai. É só uma foto.
Feliz aniversário, lindão!


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Uma casa

Eu posso te dar outro beijo? _ pergunta a menina de pele marrom, dentes brancos, cabelo encrespado.
Minutos antes andávamos de mãos dadas pelo núcleo de submoradia. Ela agarrava tão forte minhas mãos, que chegava a abraçar parte do braço, encostando seu rosto na minha pele.
A mãe não encontrou uma casa nova pra morar. Desde segunda-feira, as pernas de Isabel não pararam. Foram incansáveis na busca por um novo lar. Mas só pode pagar R$ 400 de aluguel. Amanhã, a promessa é de remoção do seu barraco, instalado em área de risco. São Pedro até deu uma trégua na chuva. Mas a pequena menina de pele marrom não se importava em andar descalça pelos riachos que corriam pela rua de terra vermelha. Lavava seus pés ali, assim como a irmã e os pais. Todos descalços.
Benigno, o pai, parece menos desesperado que Isabel. As meninas estão felizes porque vão morar numa casa nova. Se os pais encontrarem uma a tempo.
O salão de cabeleireiro do jovem de olhos verdes funcionava normalmente na segunda e terça-feira. Hoje, foi demolido sob o olhar desolado de quem ficou sem a única fonte de renda. Sem trabalho, sem moradia.
_ A vida é assim, tem seus altos e baixos _ lamenta o jovem, conformado.
Selma fazia as malas, encaixotava as louças, dobrava as roupas, ajeitava o passado atrás da porta. Ia se mudar para uma nova casa, pois a que conquistou nos últimos anos será destruída amanhã - sem dó nem piedade.
Já Benigno e Isabel... E as filhas Graciele e Gabriele... Continuam sem destino. E o prazo se encerra amanhã.

Acompanhar diariamente a aflição de famílias "despejadas" das áreas de risco mexeu emocionalmente comigo. Juro que queria ser milionária pra dar uma casa de presente à família de Benigno - não paro de pensar nas meninas, no pedido que Gabriele me fez, ao nos despedirmos. 
_ Posso te dar mais um beijo? _ perguntou, já agarrada ao meu pescoço pela segunda vez.
_ Claro que pode _ correspondi ao chamego.
_ Então você me dá uma casa nova? _ perguntou a garota, bem baixinho.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pedaços (valiosos) de papel


"Tenha coragem de seguir o que seu coração e sua intuição dizem. Eles já sabem o que você realmente deseja. Todo resto é secundário" [Steve Jobs]

Eu tenho mania de guardar cartões e cartas. Tenho uma grande quantidade, guardada a sete chaves. Mentira, não estão tão bem guardados, mas ninguém tem acesso. Gosto de exclusividade. Afinal, foram escritos pra uma única pessoa. A frase acima, por exemplo, veio em um cartão recente que recebi, de um músico que admiro profissionalmente.

O mais criativo chegou ano passado. Acompanhado de um mega vaso de flor, o envelope trazia um convite para ir a São Paulo. E não parou por aí. Havia  dois bilhetes da CPTM anexados ao cartão, pra "facilitar" a ida até a Capital, ao lado do autor desta façanha. Gostei, bem criativo. Mas não fui. E me reservo ao direito de não entrar em detalhes. 

Depois teve o postal-surpresa da Alemanha, de um amigo-relâmpago alemão; a oração em forma de carta que recebi no meu aniversário; e as antigas e inúmeras cartas que eu trocava com uma amiga na época da faculdade. Eram cartas que transportavam nossas paixões por rapazes que eu nem sei mais se existem. Tantos questionamentos fúteis! Tantos desejos e apreensões! Hoje nossas questões são outras, nem tão mais fúteis, talvez um pouco mais maduras. 

Uma coisa é fato: cartas e cartões estão cada vez mais escassos. Aos poucos foram substituídos por e-mails, por blogs. E é por isso que tenho a incansável mania de guardar os pedaços de papel que recebo. São tão íntimos pra mim! Dão a impressão de que chegam com o cheiro de quem os enviou, ou talvez sejam até um pedacinho da pessoa. Pela letra você sabe se o autor escreveu rápido ou teve tempo pra caprichar. Você vê dedicação. Percebe que a pessoa parece mesmo gostar de você, ou não. Pode acontecer também de você perceber isso. 

Eu adoro escrever em papel. E essa minha paixão vazou ano passado, quando fiz algo pra pessoa que mais amo no mundo. Um dia antes de ela embarcar pro exterior, pra morar três meses fora, entreguei 90 pedaços caprichados de papel, pra que ela pudesse ler um por dia, até voltar pra casa. Amei fazer os minicartões e minha irmã amou ter um pedaço de mim a cada dia, lá do outro lado do Atlântico. Atenuou nossa saudade.  

Também nos últimos dez anos [sim, estou festejando 10 anos de jornalismo!] recebi muitos cartões de leitores de minhas reportagens no JJ Regional. Hoje, revendo alguns, fiquei sentida por perceber que já não lembro mais de algumas pessoas que me escreveram. Que feio, Paula Fernanda! Mas tem um especial que eu gostaria de reproduzir aqui, pois há duas coisas importantes, que talvez eu tenha perdido com o tempo, e queria muito recuperá-las.

"Querida Paula,
Quando leio suas reportagens não sei o que você é mais: se jornalista ou poeta. Emprestando as palavras de Jane Austin, diria que é razão e sensibilidade" [21-05-2007, de uma leitora que me fez colecionar cartões]



segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Soltando as amarras

Fazia uns dias... Opa, primeiro vamos dar boas-vindas a 2012! Pode entrar, nos faça feliz, por favor. Ou eu vou encontrar a felicidade onde ela estiver, ah se vou!!!

Então, fazia uns dias que o livro "Soltando as Amarras" estava sobre a escrivaninha. Ganhei do jundiaiense Marcio Fabricio Nunciaroni, o autor, quando escrevi uma reportagem sobre a missão dele e da esposa pelo Brasil afora. O casal tem um barco grande pra velejar pela costa brasileira e ajudar comunidades ribeirinhas. O nome do projeto, "Velejando com Deus", explica tudo. São missionários levando alimento espiritual por mar e por terra. Levam também cultura, alegria, teatro, uma palavra amiga a quem precisa.

Escolhi o primeiro dia deste ano pra ler o livro. Soltar as amarras era justamente o que eu queria. E o livro me emocionou demais. Parece que me ensinou a ver alguns sinais de lá de cima, que antes eu não enxergava. Me ensinou, quem sabe, a navegar. A saber que o céu manda mensagens. Uma hora chove, caem tempestades, mas depois o sol brilha, nasce um arco-íris.

Marcio conta histórias tristes, de gente que não tem o que comer em casa, não tem energia elétrica, não tem esperança. O autor largou a vida mansa pra se dedicar exclusivamente ao projeto. Enfrentou dificuldades, obstáculos, mas mantém-se firme sobre as ondas do oceano. Hoje até o filho de 2 anos, que praticamente nasceu velejando, acompanha as viagens. Gabriel, o menino. Nome de anjo.

É... soltei as amarras de 2011. Deixa entrar 2012 e que seja perfeito para todos nós!

PS. Pra quem quiser espiar: http://www.velejandocomdeus.com.br/