"Meu pai sempre foi um homem ativo, trabalhou muito a vida inteira. E foi justamente no trabalho que as coisas começaram a fugir do controle. Ele tinha uma fábrica de carenagem e desenvolvia peças desenhadas por engenheiros. De uma hora para outra começou a errar as medidas e também os cálculos matemáticos simples. Na agência bancária, esquecia a senha toda semana e eu precisava desbloquear a conta. Começou a perder chaves com freqüência, documentos e papéis. O resultado era acusar alguém da família, que estaria escondendo o objeto perdido. As palavras também eram constantemente trocadas por outras que não faziam sentido numa frase, como ‘fui à padaria comprar sapo’.
As desconfianças sobre o Alzheimer habitaram minha mente. Ele estava com 59 anos quando começou a apresentar os sintomas de esquecimento. Seria possível? Procuramos o psiquiatra da família, que pediu tomografia do cérebro e, mais tarde, ressonância magnética. Os exames não constataram tumores ou quaisquer alterações. Levando-se em consideração os sintomas, o psiquiatra, juntamente com uma neurologista, fizeram o chamado ‘diagnóstico por exclusão’, revelando o Mal de Alzheimer. De imediato, os medicamentos para a doença foram sugeridos e, hoje, aos 63 anos, meu pai tem habilidade motora perfeita, faz caminhadas diariamente, mas tem dificuldades para pronunciar palavras e também compreendê-las. Não consegue mais fazer cálculos, perdeu os reflexos, não absorve o que lê e dificilmente sabe dizer que dia é hoje.
A rotina da família mudou bastante desde o diagnóstico da doença. A fábrica do meu pai fechou, o carro teve de ser tirado dele - essa foi uma das etapas mais difíceis -, uma cuidadora foi contratada para evitar as fugas de casa, e os serviços bancários, que até então eram administrados por ele, foram assumidos pela família.
Além das mudanças na rotina, a estrutura familiar também pareceu desmoronar. Minha mãe entrou numa séria crise de transtorno bipolar no ano passado, eu busquei apoio psicológico com terapias semanais, e minha irmã pensou em deixar o emprego para dedicar-se a cuidar do nosso herói. Ainda é difícil conformar-se com o quadro do Alzheimer, principalmente na idade dele.
A cada dia Ismael parece mais confuso. Num dia acorda de bom humor e noutro, agressivo, triste ou mal humorado. Pergunta várias vezes a mesma coisa e tornou-se compulsivo por jogos de loteria. O único problema é acreditar que ganha o prêmio toda semana e vai cobrar as atendentes da lotérica.
No momento, minha maior esperança é de que o novo medicamento anunciado para 2009 possa realmente estabilizar o Alzheimer para que ele fique mais tempo conosco, e fisicamente saudável como está hoje.
O que mais conforta é perceber que meu pai não tem noção completa da doença. Para ele, está tudo bem, como se uma nuvem passasse pela sua cabeça num breve instante e provocasse falha no sistema. No momento seguinte, tudo volta ao normal e a nuvem se dissipa. Às vezes também procuro pensar dessa forma."
Depoimento de Paula Mestrinel, publicado no Jornal de Jundiaí Regional no dia 19/10/08, em reportagem de Patrícia Baptista sobre o Mal de Alzheimer.











