Olha eu aí!
Diário de bordo. 6h15 da manhã, 24 de dezembro de 2008. Acabei de desembarcar a mala na pousada de Angra, sob um céu indescritivelmente vermelho. A imensidão sobre minha cabeça era pincelada pelos primeiros raios de sol, que zarpavam pelas frestas das nuvens e se lançavam ao mar. Dava pra ver uma fileira de golfinhos na água, deslizando sem pressa pela ilha, como se estivessem brincando de costurar a água. Já dizia a música, beautiful day!
Respirando. Longe de casa, do trabalho, do estresse. À primeira vista, apenas coqueiros, mar, um barquinho solitário, a serra, as ilhas... São 365 ilhas em Angra. O sol aparecera em instantes, fazendo um convite ao passeio. O transporte? Uma escuna. E lá foi ela, mar adentro, cheia de pessoas e olhares atentos ao verde das águas. O termômetro marcava 36 graus. Perfect day, eu diria. Passei o dia em alto mar, descendo e subindo pela escada da escuna, molhando e secando o corpo, penteando e despenteando o cabelo, escondendo e torrando ao sol. Impossível fugir dele!
Fim de tarde. 'O barquinho vai, a tardinha cai'. Estou de volta à pousada e minha amiga lembra da ceia de Natal. Bate o desespero. Tudo fechado. Nada comestível nas malas. Estávamos a 40 quilômetros do centro de Angra - equivalente à distância entre Jundiaí e Campinas. Por volta das 20h começa a peregrinação, em busca de um prato de comida. Fomos a todos os lugares possíveis. Até mesmo na casa de uma senhora que prepara marmitex e mora ao lado da pousada. Não. Ela não quis vender nenhuma 'quentinha' na noite de Natal. Esgotadas, nos rendemos às bolachas recheadas do frigobar e brindamos (saúde!) com coca-cola.
No ônibus. Pela primeira vez este ano andei de ônibus. Aliás, há quanto tempo eu não andava no transporte público!? Sei lá. Fazia um bom tempo. Lá em Angra posso dizer que andei mais que nos últimos anos e conheci transportes diferentes, com tarifas também diferentes: R$ 2,10, R$ 2,85, R$ 3,95... Mas, enfim, na véspera de Natal eu estava dentro de um desses 'circulares' e fiquei pasma com a quantidade de gente que subia no ônibus sem dinheiro para pagar a passagem. O cobrador fazia descer. Puxa vida. Era noite de Natal! Essas pessoas deviam estar indo para alguma ceia, sem dinheiro e, agora, sem transporte. Pensei nelas enquanto comia algumas bolachas recheadas. E nem reclamei da minha ceia!
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