sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Sepultamento de 2016




Jamais imaginei que seria complicado enterrar 2016, um ano de muitas perdas e poucos ganhos. Não via a hora de passar pelo dia 31 e começar de novo. Mas aí virei a página para 2017 e me veio a seguinte pergunta: começar o quê? E o vazio que transbordou em mim no dia 1º de janeiro? Como explicar? Percebi que não queria sepultar 2016. Nele ainda havia a minha mãe, que nunca vou conseguir enterrar no meu coração. Ela pulsa aqui dentro. Vive. Em qualquer outra dimensão. Sou um pedaço dela, como gostam de dizer as minhas tias.

Era o primeiro dia do ano e vi no espelho uma mulher sem perspectiva. Não tinha mais de quem cuidar, a quem olhar ou chamar de 'minha flor'. As páginas em branco da agenda me assombraram. Sofri para jogar no lixo os compromissos que tinha anotado no ano anterior. Logo eu, que não me apego a "fins de ano". Quero sempre passar por eles em silêncio, na minha discrição. Mas 2016 ainda permanecia sobre meus ombros. Era um peso imenso pra libertar assim... tão simplesmente, só porque mudou o calendário.

Virou o ano, mas eu ainda me perco no vazio da existência. Uma hora isso tudo vai passar, eu sei. Mas por enquanto as ausências me desarrumam. Falta algo, que talvez jamais se complete. Perder um pai e uma mãe não é uma dorzinha qualquer.  É uma cratera que enraíza no peito e nenhum cimento pavimenta a estrutura abalada. É uma porcelana moída em várias metades. É uma reflexão de quem fica e se pergunta para onde vai.

Eu nunca tive pressa de nada na vida. Acho que tudo tem o momento certo de acontecer e, com cautela, as coisas caminham bem. Fluem. Porém, por um instante, desejei que 2016 ainda estivesse aqui e me trouxesse os maiores desafios pelos quais já passei. Queria tê-los de novo só pra reviver momentos inesquecíveis ao lado dela, que me deixou tantas plantas para cuidar. Uma bênção estar entre pétalas e caules. Eis um pedaço dela em mim.

Hoje é o sexto dia de 2017. Não tenho planos. Mas na agenda já tenho alguns compromissos. Bom sinal. A vida segue em movimento e dois anjos olham por mim lá do céu. É nisso que vou me concentrar. São mais de 350 dias pela frente e muita coisa para construir, arquitetar e concretizar. Vai ser um ano diferente. Apenas me acolha com carinho, 2017. Aquela borboleta branca que repousou ao nosso lado, na virada do ano, bateu asas. Deixou 2016 para trás. Trouxe o voo da esperança e da paz.

Tudo o que eu preciso agora é de uma 'vírgula' - uma metáfora linda apresentada no filme "Um vendedor de sonhos".  É isso. Uma vírgula. Minha agenda não vai ficar em branco. Tive agora mesmo um sepultamento. E um renascimento.

Um comentário:

Tati disse...

Minha querida, você tem a doçura das pessoas mais fortes e belas. Vamos seguir escrevendo e compartilhando, pois suas palavras também nos ajudam a viver melhor. Amo vc, Paulinha. E não esquece de mim! Beijos da Tati.