terça-feira, 21 de setembro de 2010

Dois em um

Hoje, Dia Mundial do Alzheimer, eu queria ser portadora de boas notícias, mas não consigo ser otimista com tantas pesquisas que surgem a cada hora e, até o momento, nada é suficiente para trazer meu pai de volta. De volta a ser quem ele era. Ele e outras 26 milhões de pessoas no mundo perderam sua identidade. Estão vivendo num planeta diferente do nosso, diferente de tudo o que para nós é comum. É um universo misterioso para a ciência. Imagine para os familiares que lidam diariamente com esta doença!

Meu pai já não sente a minha falta quando viajo. Não janta ou almoça se não for levado até a mesa. Não tira o pijama se não tiver alguém para ajudá-lo a se vestir. Não sei se reconhece pessoas de fora, já que é sempre simpático até com desconhecidos. Não lê o jornal pela manhã. Não percebe quando estou triste. Não sabe que horas são. Quase não fala mais. Quase não entende ninguém.

Mas hoje ele me abraça vagarosamente como nunca abraçou antes. Beija o meu rosto. Faz careta. Segura a minha mão com força. Se diverte com as minhas piscadelas desengonçadas, com os meus passos de dança pela sala. Presto continência e ele responde com um gesto nobre de soldado. É o meu menino-adulto, o filho que talvez eu nunca tenha.

O Alzheimer escondeu o homem sério que comandava a casa. Trouxe um homem inocente, sem nenhum senso de responsabilidade. Sem nenhum senso comum. Tenho um novo pai que eu não sei se sabe que é meu pai. Só que eu carrego comigo um DNA que é parte dele, é parte de uma vida que foi construída até agora a partir do amor dele. 

Quem sabe um dia, quiçá amanhã, eu possa acordar com a notícia de que descobriram a cura para essa demência, tão rápido quanto descobriram a vacina para a gripe suína. Neste dia, começarão a aumentar as nossas chances de envelhecer com a mente sadia. No caso desse menino grisalho que vive na poltrona da sala, agarrado a um cobertor xadrez, seus neurônios continuam "voando" para longe, desfazendo as peças que formam o quebra-cabeça do cérebro. É meu pai, um novo e ainda mais amado pai. Dois em um.


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Que...

Que eu gostava de ficar sozinha, eu já sabia.
Que eu tinha talento para o golfe, não.
Que eu sempre quis morar em apartamento, isso é verdade.
Que essa vontade aumentou, ah, como aumentou!
Que gastronomia exótica não é atrativa pra mim, não é mesmo.
Que existe pudim de leite melhor que o da minha mãe, é novidade.
Que uma suíte presidencial custa R$ 8 mil a diária, embasbaquei.
Que um musical de três horas pode ser cansativo, é realidade.
Que a atriz Totia Meireles canta lindamente, é fato.
Que as luzes do Brooklin refletidas no Tietê tornam o rio bonito, é mudar a visão.
Que Santo Amaro tem um espaço gigante de área verde, só se explica se for resort urbano.
Que Petit Gateau é a melhor sobremesa do mundo, ah, isso é.
Que eu posso ficar num hotel 5 estrelas sem gastar 1 real, é coisa de jornalista convidado.
Que eu não devo reclamar da minha profissão, é bom lembrar disso às vezes.






E não é que ganhei
o campeonato
de golfe 
disputado com
outros jornalistas?
Sorte de principiante...
Não nasci
pra isso, não.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

(Des)arranjo

 "Me escala, me nota, me harmoniza / Me canta, me escreve, me improvisa / Sou frase sua, me continua / Faz o contra-ponto / Cifra o caminho onde te encontro / Aprendo seu ritmo moderado com ímpeto / Me afino em acordes alterados / Pela manhã peço uma pausa longa (...) [Arranjo, música de Isabella Taviani]

Essa semana ouvi de uma amiga que 'não estou precisando emagrecer', mas sim 'perder o juízo'. Quer saber? Ela tem toda a razão, embora eu ache que as duas coisas valeriam a pena. Eu não sei se isso acontece com outras pessoas, mas às vezes me canso de mim. Olho no espelho e penso: aonde você vai? E acabo não saindo do lugar. Outras vezes, eu vou sem saber pra onde, mas vou. 

É o que vai acontecer no fim de semana. Eu vou! Depois conto pra onde. Talvez não. Só preciso ter uma conversa séria comigo fora da cidade, com pessoas novas, lugares novos, atividades diferentes. Às vezes essas crises me envolvem... Eu tô bem cansada, confesso. Mas tenho uma mala vazia na minha frente, esperando ser preenchida. A cabeça, ao menos, tá cheia de coisa pra pensar.

Um beijo e bom fim de semana.

(ah, sinceramente, eu gostaria de saber se você, vez ou outra, também têm esses desarranjos da alma, que levam ao cansaço. Me conta?)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Tanto faz. Faz tanta diferença!


"Não existiria som /
 Se não houvesse o silêncio /
Não haveria luz /
Se não fosse a escuridão /
A vida é mesmo assim, /
Dia e noite, não e sim... /
Cada voz que canta o amor não diz /
Tudo o que quer dizer, /
Tudo o que cala fala / Mais alto ao coração. /
Silenciosamente eu te falo com paixão..."




E sempre silenciosamente eu falo com paixão.
Escrevo em silêncio.
Alguém me lê com a mudez do olhar.
Alguns percebem que meus olhos falam.
Poucos enxergam minha alma.
Meus dedos ganham voz no teclado.
As letras são acionadas com um ligeiro toque.
Um toque suave de palavras, uma após outra.
Ouço o tilintar das horas.
Os dias se esvaem.
É o silêncio que me envolve.
É o medo de ficar cega que apavora.
Me desespero ao pensar que não verei seu sorriso.
Enlouqueço se não puder te olhar nos olhos.
Adormeço acordada.
Acordo querendo estar ao seu lado.
Não consigo te despestar do silêncio.


(sem querer, minha "poesia" dá pra ser lida de baixo para cima também. Ando numa desconexão sem fim...)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A outra frequência do relógio

Há tempos em nossa vida que contam de forma diferente. Há semanas que duraram anos, como há anos que não contaram um dia. Há paixões que foram eternas, como há amigos que passaram céleres, apesar do calendário nos mostrar que ficaram por anos em nossas agendas. Há amores não realizados que deixaram olhares de meses, e beijos não dados que até hoje esperam o desfecho.

Há trabalhos que nos tomaram décadas de nosso tempo na Terra, mas que nossa memória insiste em contá-los como semanas. E há casamentos que, ao olharmos para trás, mal preenchem os feriados da folhinha. Há tristezas que nos paralisaram por meses, mas que hoje, passados os dias difíceis, mal guardamos lembrança de horas. Há eventos que marcaram, e que duram para sempre - o nascimento do filho, a morte da avó, a viagem inesquecível, o êxtase do sonho realizado. Estes têm a duração que nos ensina o significado da palavra "eternidade".

Já viajei para a mesma cidade uma centena de vezes, e na maioria das vezes o tempo transcorrido foi o mesmo. Mas conforme meu espírito, houve viagem que não teve fim até hoje, como há percurso que nem me lembro de ter feito, tão feliz estava eu na ocasião. O relógio do coração - hoje descubro - bate noutra frequência daquele que carrego no pulso. Marca um tempo diferente, de emoções que perduram e que mostram o verdadeiro tempo da gente.

Por este relógio, velhice é coisa de quem não conseguiu esticar o tempo que temos no mundo. É olhar as rugas e não perceber a maturidade. É pensar antes naquilo que não foi feito, ao invés de se alegrar e sorrir com as lembranças da vida. Pense nisso. E consulte sempre o relógio do coração: ele lhe mostrará o verdadeiro tempo do mundo.

Alguns textos merecem ser publicados. Este é de Alexandre Pelegi e se chama "O relógio do coração"

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Like baby, baby, baby, nooo

Um pincel cinza tingiu o céu na segunda-feira. Acordei cedo e queria fazer alguma coisa fora da cidade. Sem companhia, peguei o trem rumo a São Paulo. Acho fascinante esse transporte público, que poderia receber mais investimentos do governo. Por dia, quantas milhares de pessoas usam o modal ferroviário? Um sem número de gente. Observar a paisagem atravessar a janela é impagável. Serpentear as cidades sobre os trilhos também é encantador.

Em Francisco Morato, um garotinho que aguardava o trem quebrou o encantamento. O moleque começou a cantar Justin Bieber: "Baby, baby, baby, ohhh, like baby, baby, baby, nooo". No, no, no!!! Minha mente estava tranquila até então. Acordara cantando Whitney Houston [I have nothing, nothing, nothing... If I don't have you] e, de repente, me peguei cantando a música cretina do Justin Bieber até chegar em São Paulo. É impressionante como alguns refrões grudam que nem chiclete no cérebro.

Daí, quando não se tem com quem conversar, comecei a lembrar do quadro do Pânico na TV, no qual Marília Gabriherpes entrevista Justin Biba, Beto Barbosa e Mariah Carey. Imperdível.  Parecia uma boba rindo sozinha no trem. Mas pelo menos esqueci do refrão de "Baby". 

Voltei a cantar em silêncio Whitney Houston. Morri de inveja das pessoas ao lado, todas com fone de ouvido. Por que eu não levei o meu? Mania de achar que vou ser assaltada... Mania besta, por sinal. Na noite anterior eu tinha feito uma seleção das músicas mais lindas da Whitney e mandei pra minha irmã. Na segunda-feira cinza, quando acordei, liguei para convidá-la para passear em São Paulo. E sabe o que ela respondeu?

_ Estou ouvindo Britney Houston, vou ficar na cama hoje.
_ Hã???

Quanta diferença faz trocar um WH por um B...

domingo, 5 de setembro de 2010

As Pontes de Madison

Teatro Polytheama, atualmente sem o belo lustre,
 que causou certa polêmica na cidade

Sempre achei que um teatro como o Polytheama, em Jundiaí, com capacidade para 1.216 pessoas pudesse ser palco para bons espetáculos. Mas desde que ele foi reinaugurado, há mais de 10 anos, vinha sendo mal utilizado, na minha opinião. A estrutura do local é linda de morrer. Alguns artistas que se apresentam ali comentam sobre a beleza do "nosso" espaço. Aliás, em 2011 esse patrimônio completa 100 anos de história. 

Apaixonada por teatro, agora começo a ver seu renascimento no Polytheama. Há luz no quase fim da vida cultural. Parece que, finalmente, encontraram um meio de trazer peças de São Paulo pra cá, sem que tenhamos de nos deslocar até a Capital. O Polytheama merece. Nós merecemos!

Fica uma dica para o próximo fim de semana. Marcos Caruso e Denise Del Vecchio apresentam "As Pontes de Madison", baseada no romance de Robert James Walter [o filme é lindo, né?]. Será dia 11 de setembro, às 21h. Prestigiar os espetáculos é não deixar a cortina do Polytheama se fechar novamente.