Meu pai já não sente a minha falta quando viajo. Não janta ou almoça se não for levado até a mesa. Não tira o pijama se não tiver alguém para ajudá-lo a se vestir. Não sei se reconhece pessoas de fora, já que é sempre simpático até com desconhecidos. Não lê o jornal pela manhã. Não percebe quando estou triste. Não sabe que horas são. Quase não fala mais. Quase não entende ninguém.
Mas hoje ele me abraça vagarosamente como nunca abraçou antes. Beija o meu rosto. Faz careta. Segura a minha mão com força. Se diverte com as minhas piscadelas desengonçadas, com os meus passos de dança pela sala. Presto continência e ele responde com um gesto nobre de soldado. É o meu menino-adulto, o filho que talvez eu nunca tenha.
O Alzheimer escondeu o homem sério que comandava a casa. Trouxe um homem inocente, sem nenhum senso de responsabilidade. Sem nenhum senso comum. Tenho um novo pai que eu não sei se sabe que é meu pai. Só que eu carrego comigo um DNA que é parte dele, é parte de uma vida que foi construída até agora a partir do amor dele.
Quem sabe um dia, quiçá amanhã, eu possa acordar com a notícia de que descobriram a cura para essa demência, tão rápido quanto descobriram a vacina para a gripe suína. Neste dia, começarão a aumentar as nossas chances de envelhecer com a mente sadia. No caso desse menino grisalho que vive na poltrona da sala, agarrado a um cobertor xadrez, seus neurônios continuam "voando" para longe, desfazendo as peças que formam o quebra-cabeça do cérebro. É meu pai, um novo e ainda mais amado pai. Dois em um.





