Já parou pra pensar que a gente é apenas um monte de tecido, de carne e ossos? Bati os olhos, sem querer, mas foi inevitável, num laudo de exame de corpo de delito, ou melhor, no laudo necroscópico de um homem que morreu atropelado por um trem. E exatamente assim o descrevia: Adulto do sexo masculino, cor preta, biotipo normolíneo, compleição mediana, eutrófico. Crânio simétrico, rosto redondo, fronte oblíqua, íris preta, nariz platirrino (hein?!), lábios grossos, mento ortognato (caracas!), bigode e cavanhaque (ah, finalmente algo legível...). No mesmo momento imaginei como irão me descrever na certidão de óbito que, eu espero, demore um bocado de tempo pra ser feita.
Lembrei do dia em que estive na sala de necrópsia do IML. O ambiente estava sendo lavado, pois acabara de ser realizado um procedimento e, bem nesta hora, cheguei para entrevistar o auxiliar do legista. Impossível esquecer do cheiro forte, que embrulha o estômago em segundos. Fiquei duas semanas sem conseguir comer carne. A morte, ali, é algo banal. Fiquei bem próxima dela e a encarei de uma maneira triste, bem triste. Achei que nessa hora pudéssemos receber um tratamento melhor. Mas infelizmente não é o que acontece. Se bem que não vai importar mesmo, né?
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