sexta-feira, 15 de julho de 2016

De desafios que se vive a vida


"Vem sentar-se comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos que a vida passa e não estamos de mãos enlaçadas. Depois pensemos, crianças adultas, que a vida passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, mais longe que os deuses. Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente e sem desassossegos grandes." 
(Fernando Pessoa e um trecho de meu poema favorito)

Estou às margens dos 40 anos e isso me assombra. Olho a minha silhueta no espelho e vislumbro uma menina de 20. Isso também me assusta. Deveria me sentir uma mulher-senhora, dona do destino, vida estável, nenhuma indecisão. Mas continuo vivendo um dia de cada vez, como se amanhã não existisse. Afinal, vamos combinar, não existe. Até que eu abra os olhos amanhã cedo novamente. 

Dia desses, com minha mania de ser menina, pratiquei ginástica artística e rítmica. Tive várias quedas na cama elástica, que me impulsionava vários metros acima até me despejar novamente em queda livre. Senti-me, mais uma vez, moleca. Com fitas e arcos, rodopiando, bailando conforme a vida.

Quando você presta atenção na sua trajetória e percebe que é um momento de mudança, mesmo que isso signifique entrar na contramão, sente-se com medo, porém, livre. Ainda hoje uma mensagem de um rapaz que foi importante pra mim, lá no passado, me fez entrar no eixo central. "Devia ter me casado com você", disse ele, supostamente arrependido com o fim do casamento.

Não, não devia. As pessoas fazem escolhas, magoam e atropelam aquelas que deixam para trás, mas tocam a vida, de um jeito ou de outro. Com aquela pessoa ou com outra. Ninguém é feliz o tempo todo. Ninguém é triste todo instante. Uma porção de nós segue em frente. Um rastro de nós é apagado, como as pegadas na areia.

Aquela menina de 20 ou 40 que se lança para o alto numa cama elástica vai cair, certamente, até que o treino a deixe segura. Mas vai levantar quantas vezes forem necessárias. É o aprendizado que fortalece a base do exercício diário. É a persistência. É saber que precisa mudar e dar um novo passo, desde que ele represente satisfação.

A gente só dá mais valor à vida quando perde alguém ou está perdendo. A mulher que me deu a vida está bem doente, no quarto ao lado. Acabei de cuidar, há poucos anos, do homem que mais amei, meu pai, e que perdi tão precocemente. Agora vem a vida e quer levar minha mãe. É triste, exaustivo para o coração do ser humano, tão frágil.

Por isso que às vezes ainda me sinto a menina de 20, que não tinha de pensar no que fazer, qual rumo tomar. Apenas vivia. Eu vivo. Se existir ou não o amanhã, não vou me arrepender de ter vivido tudo o que venho vivendo. É de desafios que se vive a vida, e por aqui a gente vence um por dia. Considero um bom resultado.

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