"Sometimes /I wish I could save you /And there's so many things /That I want you to know / I won't give up /'Till it's over / If it takes you forever / I want you to know" (Simple Plan)
Ela tinha cabelos brancos até os ombros, lentes grossas nos óculos e usava roupa larga, embora magra. Devia ter pouco mais de 70 anos, rosto esmagado como maracujá, olhar distante. Passou pela minha mesa, enquanto eu almoçava com a solidão, e não reparou que havia uma alma ajeitada na cadeira, olhando para ela.
Seus passos eram lentos, assim como os gestos. Tirou sem pressa da carteira alguns trocados e pagou para a moça do caixa. O almoço fora para a barriga e o dinheiro, para a moça do caixa. [Repare na moça do caixa: cabelo preso por uma touca, pele morena, olhos negros. Dedos ágeis nas teclas do micro. Aliás, no restaurante mais antigo da cidade, o micro é novidade. Onde será que está a outra moça do caixa? Aquela que sempre estava lá com olhos verdes, dentes muito grandes e maquiagem carregada?]
Bom, deixa a moça do caixa para lá. A velhinha agradeceu e disse que iria tomar um café. Dirigiu-se até o próximo balcão - o de doces e salgados - e abriu novamente a carteira para pagar o almoço (que há menos de 15 segundos havia pago). Lá vai a moça do balcão perguntar para a moça do caixa se aquela senhora havia esquecido de pagar a refeição.
_ Ela pagou. É meio esquecida _ disse a moça do caixa para a moça do balcão.
Então a senhora de cabelos brancos pediu um suco de abacaxi. No mesmo instante, ouvi a moça do caixa dizendo que ela queria um café e não um suco.
Perdi a fome. A velhinha devia ter alguma demência, como Alzheimer, por exemplo, e estava sozinha no restaurante. Começou o embate das duas moças: a do caixa e a do balcão. Preparavam um suco ou um café? Deixaram a velhinha de lado e foram atender outras pessoas que aguardavam ansiosas, como eu, o fim daquele episódio.
Decidi não esperar, já que a senhora dos cabelos de neve esperava, pacientemente, encostada no balcão, como se a vida passasse lentamente sobre seus olhos. Não expressava nenhuma preocupação, nenhuma impaciência, nada. Ficou ali. Uma alma debruçada sobre o mármore do restaurante. Talvez já tivesse esquecido o que queria.
Passei por ela, como um vidro transparente. E foi assim que me senti, transparente. Não fiz nada para salvá-la. Ela estava em outro mundo. Talvez melhor que o meu, cheio de omissão e covardia.
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