terça-feira, 27 de agosto de 2013

Gênesis no suvaco do Cristo


Há um certo tempo deixei de ser dependente de companhias. Superei o medo de viajar sozinha e, agora, vou a qualquer lugar sem precisar de ninguém. Descobri o quanto a minha companhia pode ser agradável - sem soar arrogante este pensamento, por favor. Gosto de estar sozinha. Seja numa multidão ou sozinha mesmo, num hotel ou numa cidade em que ninguém me conhece. A sensação é de que eu controlo o relógio e não o contrário. Como disse uma amiga, se você estiver bem, é uma delícia estar single. Mas esteja depressiva pra ver... Não é o meu caso. Thanks, God.

Fiz um bate e volta no Rio, no último fim de semana. Ninguém quis ir. Lá fomos nós, a Paula e a Fernanda, sentadas na poltrona de número 21, embaixo do ar-condicionado do Cometa, que não me deixou dormir de frio durante a madrugada. Beleza. Apenas um detalhe.

Desta vez, conheci um Rio que nunca tinha visto. Talvez não tivesse olhado direito das últimas vezes. Sozinha há tempo pra tudo. Pra se demorar no banho, pra estender o olhar pela orla de Copacabana, pela multidão caminhando no domingo de manhã na avenida Atlântica, para as flores nas ruas, para a Lagoa Rodrigo de Freitas, para o nascer e o pôr do sol... Há tempo para ficar na cama até quando eu achar que devo (e mereço) e até para reparar no suvaco do Cristo. Pois é.

No caminho para o Jardim Botânico, minha amiga que está morando no Rio me atentou para este lado do Corcovado. Nunca tinha reparado que o Botânico fica embaixo do suvaco do Cristo. E que, por este motivo, há um bloco de Carnaval no bairro com este mesmo nome: "Suvaco de Cristo". Genial.

Fui ao Rio especialmente para ver a exposição do Sebastião Salgado, que valeu cada segundo desta minha vida. O cara não é fotógrafo. É artista. É arte na mais pura essência o que eu vejo nas imagens produzidas por ele. Gênesis é a exposição que mais me encantou até hoje. Foi vista por mais de 70 mil pessoas no Rio - acabou ontem a mostra - e quero ver de novo em São Paulo, já que ela desembarca na Capital a partir do dia 5 de setembro.

São imagens impressionantes - não tanto pela captura - mas pela nuance das cores e sombras, que formam outras imagens dentro da mesma foto. É isso. Eu vejo mais do que uma fotografia numa mesma imagem. A sombra na cauda do crocodilo se transforma em um barco; os esquimós percorrendo a neve viram rastro de formiga; os Xingus se transformam em cenas ancestrais, numa exposição contemporânea.

Sete anos. Esse foi o tempo que Sebastião Salgado seguiu fazendo suas expedições pelo mundo para organizar Gênesis. Fico pensando no trabalho de seleção das imagens para a mostra, que conta com apenas 245 fotografias.

Numa entrevista para a Globo News, a repórter fez uma pergunta interessante ao fotógrafo. "Se Sebastião Salgado estivesse perdendo a visão, qual imagem gostaria de preservar na memória?" Ele respondeu com outra pergunta: "Se você tivesse vários filhos, e fosse perder a visão, qual gostaria de ter em mente?"

A exposição é isso. É um universo todo, por completo. Nada ali é visto de forma individual ou separada. É o universo brilhante de Sebastião Salgado, e também o nosso, que pouco gente tem a oportunidade de ver ou explorar.

Sebastião Salgado, um fenômeno na fotografia preta e branca

2 comentários:

lipe fonseca disse...

ele é demais, é mestre, eu sou fã de carteirinha e quero ver a exposição...

Unknown disse...

Vá ver sim, Lipe. Vale muito a pena! Comprei o livro Gênesis e, "egoísticamente", guardo pra mim as imagens da exposição.