sábado, 10 de agosto de 2013

A menina quebrada


"Escrevo porque a vida me dói, porque não seria capaz de viver sem transformar dor em palavra escrita. Mas não é só dor o que vejo no mundo. É também delicadeza, uma abissal delicadeza, e é com ela que alimento a minha fome. Desde pequena sou uma olhadeira e uma escutadeira, raramente uma faladeira..." (Eliane Brum)


Esta semana descarrilei. Dissiparam-se pedaços por todos os lados. Noites maldormidas. Dias infinitamente lentos. Cacos espalhados. Adoeci e fiquei desencaixada do corpo, distanciada da alma. No meio disso tudo, esqueci o quanto é bom cair. Porque a gente sabe o que vem depois de uma queda.

Das coisas que li, "A menina quebrada", de Eliane Brum, me trouxe certo encantamento, ou melhor, uma porção de identificação. Relata o espanto de uma garotinha minúscula em seu tamanho, que vê a amiga com a perna engessada e, no conceito mais do que certo dela, a colega quebrou. Então, entra a analogia de todas as vezes em que a gente se quebra na vida.

"As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral, contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. (...) Ser forte, Catarina, não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado".

Ali, quebrada, estava eu, diante da fragilidade de uma menina. Assim como ela não entendia que as pessoas quebram, eu não compreendia porque estava despedaçada. Ninguém, além de mim, foi responsável por esse dano emocional. Simplesmente me deixei quebrar. Logo eu, que sou mulher forte aos olhos dos outros. Logo eu, que sou a mais frágil sob minha própria perspectiva embaçada e deturpada.

Quebrei sem motivos aparentes. Quebrei por fora para reconstruir por dentro a vida que sobrou em mim.


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