Sentado à mesa da cozinha, com a cabeça na lua, começou a jogar a comida no chão.
_Pai, não pode fazer isso! _ alertei, com tom de reprovação.
Se ele ainda falasse, teria dito alguns palavrões - o que deu perfeitamente para interpretar em seu olhar faiscante. Levantou e empurrou a cadeira sobre a mesa. Deixou a comida. Fez birra.
"Não pode" é a frase que as crianças mais escutam. Meu pai, que agora voltou à infância, também. Não pode tirar a roupa molhada do varal, não pode vestir a roupa molhada, não pode colocar o copo dentro do prato, não pode tirar a sujeira do carro com as mãos, não pode bater nos gatos (nem em pessoas), não pode abrir o cadeado do portão com uma colher, não pode chutar o banco do carro, não pode pisar no cocô... Não poderia o Alzheimer te pegar, meu pai.
Hoje ele completa 67 anos de vida. Sete dentro de uma criança, porém forte como o grande homem que é. Me disse "bom dia" nesta manhã - há muito tempo não pronunciava uma palavra. Me fez sorrir. Me fez feliz no dia do seu aniversário, uma data que ele não tem mais capacidade de lembrar. Mas a gente nunca esquece! E meu abraço foi tão forte que quase o esmagou. Aí veio aquele olhar fuzilante de novo...
Ah, pai, hoje não! Não pode fazer isso.
Pode sim, pai. É só uma foto.
Feliz aniversário, lindão!
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Lindo
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