Ela abriu a porta e enxergou a vida com outros olhos. Uma menina segurava a boneca numa das mãos e uma caneca de leite na outra. O cachorro magricelo se estendia num canto da sala, deitado sobre o chão gelado. O inverno se espalhava pela atmosfera. Dava pra ver a chuva que deslizava pela janela. Dava pra ver o sol, que insistia em não aquecer aquela casa. Um homem beirava seus 60 anos. Beirava a sombra silenciosa de uma árvore. Sentava-se confortavelmente na poltrona com os pés esticados sobre o sofá. Dentro de sua cabeça, a idade era mínima. Talvez uns 7, 10 anos no máximo. Lia o jornal, correndo os olhos do início ao fim das palavras. Se um número avistasse, circulava com a caneta. Uma mulher e duas filhas. Era tudo o que tinha o homem. Quando a porta fechou atrás de si, um turbilhão de coisas adormeceu. Ela esqueceu o dia ruim que tivera, o desânimo que a perseguia, o estresse do trabalho, a rotina. Dentro daquela casa habitava um outro mundo. E ela pertencia a ele como ninguém. Era o seu casulo, feito de amor, feito de família. Beijou o homem, a menina e até o cachorro. Fez uma sopa quente, alimentou desejos de um novo dia, e que fosse melhor. Na manhã seguinte, ela abria a porta. Deixava para trás a família. Então, só Deus sabe o que a esperava. Ela caminhou alguns passos e sumiu na neblina que caía sobre a cidade. Era uma segunda-feira. Uma segunda chance caía sobre seus pés.
Um comentário:
Adorei...
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