"Dormia como se estivesse no sofá da sala". Assim começou ela, a respeito do namorado, deitado no caixão. "Estava em paz. A feição não mudou de madrugada, como achou a irmã dele". Aneurisma, 30 anos, 10 irmãos, uma mãe em pranto, uma namorada sem norte. Adriana ligou no sábado dizendo que iria me visitar. "Sua mãe não está bem. Vou te ver, Fer". Disse que as coisas estavam caminhando, mas a amiga logo desconfiou que algo não ia bem. "Amanhã eu conto, na sua casa". Ela chegou com um convite. Era a missa de sétimo dia do namorado. A amiga não acreditou. Havia suspeitado que o namoro tivesse terminado, ou que eles tivessem brigado, mas nunca uma morte passou pela sua cabeça. Ainda mais assim, recebendo o convite de uma missa. Adriana já estava conformada. Confiara a Deus seu coração, sua dor. Agarrou-se à fé para aguentar mais esta trapaça da vida, mais uma lição. Ela e ele moravam juntos há apenas dois meses. "Nunca estive tão feliz. Estava dando tudo tão certo". Confessara a desilusão. Admitira a tristeza. Indescritível era a dor. No meu sofá da sala, derramou-se Adriana, espalhou-se a felicidade, agora moída em pedaços. Como caco de vidros, cortando sua alma. Na missa, entregara à amiga a foto de Alcides, com a oração de São Francisco de Assis. Talvez a mais linda de todas. "Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; (...) Onde houver desespero, que eu leve a esperança; (...) e é morrendo que se vive para a vida eterna".
Em tempo: Adriana é uma das minhas grandes amigas. Perdera o namorado na última terça-feira, vítima de um aneurisma. Neste momento chove lá fora. É como se eu ouvisse o choro de Adriana, que repousa a cabeça no travesseiro e eleva o pensamento a outra dimensão. Chego a pensar que somos todos cacos de vidro neste mundo, prestes a quebrar em novos pedacinhos a qualquer momento.

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