"Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro.
Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras - e é novo para mim o que escrevo porque
minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão"
A edição é de 1973. Não tinha nascido ainda, mas ela já publicava seus livros. Suas palavras estavam há meses na minha prateleira. Tentara uma vez ler Àgua Viva, mas abandonei. Não estava preparada ou talvez não sintonizasse a mesma música da autora. Encontrei a obra num sebo, por isso as páginas amarelas. Na capa, uma mulher com olhar triste, envolvida por uma burca colorida que revela apenas o rosto do ser feminino. Olhos sem cor. Inquietos. Poucos riscos traçam seu perfil.
Hoje, as palavras me embriagaram. Causaram-me hipnose. Li do início ao fim 118 páginas, sem parar. Esparramei-me na poltrona do quarto onde o sol explodia pela janela e iluminava as linhas retas de Clarice Lispector. "Este livro é uma linha reta no espaço. É sempre atual, e o fotômetro de uma máquina fotográfica se abre e imediatamente fecha, mas guardando em si o flash. Mesmo que eu diga 'vivi' ou 'viverei', é presente", disse-me ela, com toda a sua liberdade de expressão.
O tempo foi passando, o raio de sol se estendendo na atmosfera e partindo para outros cantos. Meu lado foi escurecendo aos poucos, mas clareando minha alma a cada página virada. Como ela consegue ser tão transparente? Não há uma história. São pensamentos em palavras, que escorrem no presente como se não houvesse passado. Ela traduz a inquietude da vida fazendo das palavras seres pensantes. "Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra".
Clarice é confusão e pensamento em Água Viva. Por isso a leitura deste romance não é fácil, a priori. É visceral. Eis o motivo de deslumbrar-me na leitura. Ela se debruça em questionamentos, vai e volta a todo instante, abandona a máquina de escrever e se entrega a ela no momento seguinte. Fala muito de morte, mas apresenta a vida como talvez nenhuma outra mulher a tenha desmistificado. "Tudo acaba, mas o que te escrevo continua. O que é bom, muito bom. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas".
A escritora não está nas entrelinhas. Sua alma está no interior do livro. Mostra-se sem vergonha. Nua. Transparente. Quem me dera esta coragem! Quem me dera esta ousadia ou este dom! Na década de 1970 Clarice já era uma mulher em lua-de-mel com a literatura. E falava muito de morte - esta que veio buscá-la não muito tempo depois.
Como ela mesma diz, tudo acaba, mas o que escreveu continua em livros que festejam mais idade que eu. "Diga-me, por favor, que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora. Estou me encontrando comigo mesma: é mortal porque só a morte me conclui". É hora da sua eternidade, Clarice! E eu a festejo.
Apaguei a luz ao sair da poltrona. Deixei-me despejada na sombra do silêncio. Então, algumas palavras ainda me perseguiam no breu: "Domingo é dia de ecos..."
2 comentários:
Clarice é sempre fantástica.
bjo
Luana linda!
Também acho a Lispector fantástica.
Bjs
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