quinta-feira, 30 de abril de 2009

Eu, espremida numa crônica

Um mês em Roraima. Sem pauta. “Vai. E volta com uma história”. Não, meu chefe não me disse isso. Quem recebeu essa ordem foi a jornalista Eliane Brum, que voltou com a senhora história para a revista Época. Nunca estive em Roraima, mas posso dizer que já conheço muito bem, pela descrição perfeita da autora. Ainda não terminei de ler "O Olho da Rua", livro dela, com uma seleção de dez grandes - e brilhantes - reportagens. Acho que estou na metade e, acredite, difícil concluir a leitura sem se emocionar ou vibrar com cada palavra em seu devido e surpreendente lugar. Eu diria que é uma das poucas pessoas no mundo que sabe utilizar bem cada verbo, adjetivo e substantivo. Merece cada prêmio que já ganhou.
Lendo uma das suas preciosas páginas, ela diz que o leitor chega ao fim da história, mas muitas vezes nunca chegará à continuação de uma reportagem, na vida real. É verdade. Várias vezes a gente escreve, toca alguém, e a trama se desenrola fora do jornalismo.
Lembrei de uma vez em que publiquei uma crônica no jornal, sobre a vida das pessoas solteiras, em especial a minha. Falava da pressão que os familiares exercem sobre a gente pra arrumar um namorado e coisa e tal. Eram fatos do cotidiano, mas que me deixavam pê da vida. Afinal, ninguém solteiro pode ser feliz? Bom, após a publicação, recebi vários e-mails de leitores que gostaram e, claro, eram solteiros. Achei engraçado porque eles relatavam exatamente as mesmas situações e episódios pelos quais eu passava. Um rapaz me convidou logo de cara pra sair. Descartei. Achei ousado demais, pois a intenção da crônica não era receber convites por e-mail. Outro, romântico, começou a se corresponder comigo por um longo tempo. Até que eu, doidinha, aceitei um convite para uma pizza. Quem diria que uma crônica poderia render um encontro! Não me identifiquei com o rapaz - embora fosse romântico, gentil e tenha me dado até um buquê de rosas vermelhas. Era realmente uma peça rara.
Então ele tentou me conquistar de outra forma. O pai dele mandava cartinhas para o jornal elogiando reportagens minhas e os editores publicavam no "Espaço do Cidadão". Era cômico, pois só eu sabia que ali havia outras intenções (talvez um sogro querendo derreter o coração da nora). Não surtiu efeito. Mas agradeci os elogios. Vez ou outra a gente se encontra por aí e o rapaz que escrevia belos e-mails faz de conta que não me conhece.
Também fiz muitas amizades após algumas reportagens. Tenho orgulho e contentamento de ter amigas escritoras, senhoras que já passaram dos 60, 70 e 80... A dona Aparecida Mariano de Barros é uma delas. Me envia todos os lançamentos de seus livros, com dedicatória, e ainda faz uma poesia ou um haicai para mim. Estou devendo uma visita a esta acadêmica, ou como ela diz, um chá da tarde. Também tenho um carinho especial por um escritor e apresentador, o Odair Cantamessa, que selecionou várias de minhas reportagens e me surpreendeu com um programa de rádio, com meus versos entrecortados por músicas. Como agradecer a um presente destes?
Ah, chega de falar de mim. Já estou inflando feito um peru... rs
A única intenção deste post é indicar a vocês a mais bela reportagem que já li sobre um asilo. O título é "A Casa de Velhos" e a autora, Eliane Brum, claro. A matéria rendeu 24 páginas no livro, além de fotos dos personagens. A idéia resumida da autora é "a vida inteira espremida numa malinha de mão". Diz tudo.
Uma das coisas mais interessantes do terceiro livro da jornalista é que após a íntegra das reportagens, ela conta o making of da história, seus erros e acertos. Achei aqui, on-line, a Casa de Velhos, caso alguém tenha vontade de ler.

3 comentários:

Anônimo disse...

Tenho muita vontade de um dia fazer algo do tipo: vivendo na pele. Reportagens desse tipo devem engrandecer a alma, nos sentir útil (mesmo) no jornalismo.

Sobre as amizades que se faz no dia a dia do jornalismo, isso acontecebe bastante em revistas, já que acabamos falando com nossas fontes por diversas vezes.

Vez ou outra converso com minha amiga de bancada e brinco: "nossa 'amiga de infância' acabou de mandar um e-mail comentando isso ou aquilo", sobre alguma artista floral, por exemplo, ou uma decoradora. Elas acabam contando até seus segredinhos... rs

Bjs, Jana

Garota no Divã disse...

Estou lendo esse livro tbm... Ganhei de presente de aniversário e só tive tempo de pegar no fds passado. É simplesmente demais! Eu adoro a Eliane e acho que vc tem um estilo mto parecido com o dela.

beijão

lipe fonseca disse...

oie
adorei a foto, combinou incrivelmente com o texto. deu vontade de ler a Brum. vem cá, vc veio pra virada cultural em sp?