"Amamos A, amamos B, amamos C, e por alguns nem era amor, e sim entusiasmo, e sabe-se lá de quantos entusiasmos somos capazes. Melhor desse jeito, amar com movimento, amar com todas as nossas capacidades, amores pequenos, amores tortos, amores retos, amores para sempre, até segunda ordem (...)"
Sentei na cama e devorei. Foi assim, num instante, que concluí a leitura de "Fora de mim", mais um livro da Martha Medeiros, que continua sendo minha cronista predileta. Estava passando pela prateleira de um hiperrmercado, quando esse título me saltou aos olhos. Fora de mim. Era como me sentia. Daí vi a autora, a Martha. Só podia ser ela. Sempre me surpreendendo. É boa a beça a leitura, pra quem está fora de si. Ali está o lado Clarice Lispector de Martha. Está a insanidade de "Água Viva", de quem conversa consigo mesmo, sem se importar se o outro vai compreender ou não. Mas geralmente quando duas pessoas estão fora de si, no caso leitor e autor, eles se entendem, se completam. Por isso a leitura foi tão interessante. De tão fora de mim, virei a última página e me contive para não voltar ao início e ler tudo de novo. Maluquices à parte... Mas eu vou ler de novo, sim.
E aqui fica um trecho - a essência do livro - que é perder pra depois ganhar, dois ingredientes principais da vida.
"Doeu perder você. É uma dor tão recorrente na vida de tantas mulheres e tantos homens, é assunto tão reprisado em revistas, é um sofrimento tão clássico e tão narrado em livros, filmes e canções, que mesmo que eu não lembrasse, lembrariam por mim. É uma dor que se externa. Uma dor que se chora, que se berra, que se reclama. Uma dor que tentamos compreender em voz alta, uma dor que levamos para os consultórios dos analistas, uma dor que carregamos para mesas de bar, e que vem junto também para a solidão da nossa cama, para o escuro do quarto, onde permitimos que ela transborde sem domínio e sem verbo. A dor massacrante do abandono, da falta de telefonemas, da falta de beijos, da falta de confidências. No entanto, perde-se o homem, perde-se a mulher, mas o amor ainda está ali, mesmo sendo o deflagrador do vazio. Por estranho que pareça, há uma sensação de pertencimento, algo ainda está conosco. A saudade é uma presença".

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