Ele vinha andando de pés descalços pela cozinha. Foi a primeira coisa que reparei: os pés. Acho que nunca o tinha visto com os pés sem sapatos. Engraçado! Pensei: 'o aquecimento global' tá mudando até as manias dele. Quem é que aguenta ficar de sapatos e meias neste calor que ultrapassa os 30 graus? Ele sempre aguenta. Esteja o calor que estiver, lá vai ele na sapateira procurar sapatos e, em seguida, as meias grossas de algodão.
Não adianta insistir pra calçar os chinelos. Ele não sai de casa sem meias, sem sapatos, sem cinto. Numa das nossas caminhadas pelo bairro, cismou que conhecia o casal abraçado na calçada vendo o filho andar de bicicleta. Estendeu a mão e a entregou para o homem e a mulher, como se todos se conhecessem há tempos. Simpático. Sempre. No rosto, o sorriso largo, de um menino ressurgido nos seus quase 65 anos. Mal sabia que dia era, que hora era. Pouco importava. Admirou também a criança pedalando com um cata-ovo na cabeça. "Bonitinho, né?"
"Bem bonitinho, pai". E continuamos andando até o fim da rua, enquanto ele rodopiava a cabeça para lançar, vez ou outra, olhares curiosos para o menino. Era como se ele estivesse sentindo o mesmo prazer do garoto, que aprendera há pouco a andar sobre duas rodas. Caiu, chorou, recomeçou. Com ele também é um recomeço, e eu acompanho como se fosse a mãe, orgulhosa, e ao mesmo tempo cheia de inseguranças e medos. Medo, principalmente, de perdê-lo.Hoje começa mais uma semana. É também um recomeço pra todo mundo. Talvez o garoto não caia mais de bicicleta. Talvez o casal não deixe mais o menino brincar na rua. Ou simplesmente o moleque vai crescer tão rápido que suas brincadeiras serão outras.
Dentro de três dias, o homem que virou criança completa 65 anos. E ele sempre será o menino que preenche meu coração e faz pulsar a minha vida.

Um comentário:
Belíssima homenagem q vc fez ao seu pai. Amei. Parabéns e muitas felicidades a ele. Beijos
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