sexta-feira, 4 de setembro de 2009

The end

A chuva caía lá fora. Quando entrei, ela já estava sentada. Fiquei na fila por uns cinco minutos e após ser atendida sentei-me ao seu lado. Eu, com uma senha nas mãos. Ela, com um pedaço de pão. Balançava os pés pra cima e pra baixo, impaciente. Reparei nos pés, grandes, desproporcionais ao corpo mirrado. Na mão direita, o calo chamava atenção. Imaginei que fosse resultado de anos de tricô ou costura. Óculos de lentes grossas escondiam o belo par de olhos daquele rosto enrugado. Ela mastigava sem parar as migalhas do pão. Por um minuto, olhei na recepção o chamado da próxima senha. Me distraí. Ela cruzou os braços. Onde estaria o pão? Embaixo do braço? Então ela me olhou e perguntou:
_ Já é meio-dia?
_ Não. São 10h40 ainda.
_ Nossa. Achei que já fosse meio-dia...
_ Faz tempo que a senhora está esperando?
_ Faz muito tempo.
Ela segurava uma bolsa branca nas mãos, agora vazias. Concluí que o pedaço de pão deveria estar ali dentro. Esperei 40 minutos até ser chamada para o atendimento numa repartição pública de saúde. Aquela senhora beirava os 80 anos e estava sozinha. Sem senha. Eu, pegaria o remédio para Alzheimer. Ela... Desta vez fiquei impaciente, queria perguntar o que estava fazendo sentada, talvez ajudá-la caso tivesse esquecido de pegar a senha. Mas notei que ela estava muito incomodada, olhava de um lado para o outro e, grande parte do tempo, para a chuva e os carros que completavam o cenário lá fora. Então ela soltou o que estava engasgado:
_ É mesmo o fim. Ninguém mais se entende.
_ É...
_ Você também acha que é o fim, menina?
_ Não. Eu acho que o fim ainda está longe. A senhora acha que já estamos no fim?
_ Não, eu também não acho. Deus disse que antes do fim teríamos muito sofrimento na Terra.
Puxa vida. Quer melhor resposta para o atendimento na saúde pública? Eu nunca teria dado uma resposta dessas, mas ela me surpreendeu. Enquanto aguardávamos, no mesmo sofrimento, soube que ela mora em Louveira e esperava o marido para buscá-la de carro.
Cinquenta e seis! Foi a senha que chamaram. Despedi-me daquela senhora e fui buscar o remédio. Olhei para ela antes de deixar o Núcleo Integrado de Saúde (NIS) e a vi mastigando.

3 comentários:

Vitória disse...

Se é o fim, que pelo menos seja um "Happy End"...

Gustavo disse...

Se ainda não está tudo bem é porque ainda não chegou o fim. Isso é óbvio, pelo menos para nós que fomos criados na melhor mentalidade hollywoodiana. Rsrs.

PS: aquela véia trampa lá e só estava mastigando porque se encontrava em seu horário de almoço/lanche... mas você hein Paula? Encana com tudo... Não se esqueça que temos um ótimo prefeito, que administra nossa saúde com muita "quaidade".

Unknown disse...

Risos...
Gu, acho que faltou o tal "salto de qualidade" pra essa mulher. O sapato dela estava bem gasto... E eu reparo mesmo! Mas só quando acho que o personagem vale a pena e vai deixar lembrança. Bjs