O céu estava pálido e cobria a rua com uma atmosfera de nostalgia. Os carros percorriam a avenida e pareciam cobertos de uma espessa camada de gelo. Gélidos também estavam os motoristas, camuflados através dos vidros com película escura. Embora o vaivém de veículos fosse constante, me sentia sozinha. Os garotos saíam da escola e formavam fileiras na ladeira, como se fossem formiguinhas rumo ao lar. No caminho inverso, uma jovem sozinha, de mochila nas costas, andava sem preocupação, mantendo o olhar fixo numa só direção. Segui o olhar dessa menina de uns 14 ou 15 anos e avistei um garoto, também sozinho, que ia pelo mesmo caminho, ao encontro dela. Quando se aproximaram, entrelaçaram-se os braços num fraterno abraço, demorado, porém mudo. Nenhuma palavra foi pronunciada, nem 'oi' ou 'tchau'. Os corpos se distanciaram e cada um seguiu o seu caminho, até que a jovem olhou para trás, em busca do olhar do rapaz, que seguia de costas com nítida naturalidade. O carinho com o qual se envolveram naquele abraço chamou minha atenção. A expressão de ambos realmente não exigia palavras. O abraço exalava sentimentos, depositando no movimento pálido daquela rua um rastro de amor e carinho. Essa cena nunca saiu de minha cabeça. Me senti como a garota, em busca de algo mais. Aquele abraço, tenho certeza, não foi apenas um simples gesto de cumprimento. Ali certamente o destino escreveu um caso de amor, quiçá platônico ou incompleto. Talvez o destino tenha esquecido de redigir palavras naquele momento para formar um diálogo entre os jovens. Mas, talvez, a mudez tenha sido mais comunicativa do que nunca.
Paula Mestrinel
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