sábado, 26 de março de 2011

Quase memória

Ao passar pela recepção de um hotel, onde almoça todos os dias, o recepcionista anuncia que há uma entrega. Deposita em suas mãos um embrulho, delicadamente fechado com um barbante. Reconhece a letra e também o nó no barbante. Era de seu pai. Não seria estranho receber a entrega naquele dia, se seu pai não tivesse morrido há 10 anos.

Em resumo, esse é o novelo que se desenrola no livro "Quase Memória", de Carlos Heitor Cony, que traça as lembranças do pai a partir do momento em que recebe o embrulho. E o que tem lá dentro ele deve revelar no final do livro, pois cheguei à metade hoje e ele ainda não contou o que é.

A história cheira bem como os lírios brancos que enfeitam minha sala - entrega que recebi esta semana, da mesma pessoa que me deu o livro em dezembro, com um cartão adorável. "Para a menina dos olhos de garoa. Este é um livro bonito. Para os que amam o pai, ainda mais", diz o verso do cartão.

E lendo as páginas de "Quase Memória" fiquei admirada, cheguei a sentir inveja do quanto Cony conhecia o pai, seus trejeitos, seu modo de escrever, de aparecer numa situação em que precisava de ajuda. Percebo que só hoje, depois de tantos anos, conheço o meu pai. Sei o que significa cada olhar, cada suspiro, cada gesto, sorriso ou cara fechada. Sei os horários em que ele vai ao banheiro; a hora em que quer sair de casa; o momento que quer um beijo meu; a hora em que se sentará ao meu lado. Sei quando vai surtar, ficar com raiva, agredir.

Meu pai quase não fala mais, mas o corpo é um conjunto de sons que eu aprendi a ouvir, interpretar e compreender. Senti inveja do Cony quando diz que o pai gostava de manga e que aquele embrulho cheirava manga. Ele lembra que o pai dizia, um dia, ter sido escoteiro. Portanto, o nó no barbante era coisa de especialista. Meu pai adora banana e só de uns anos para cá eu fiz essa descoberta. Meu pai sempre foi detalhista com as coisas, nunca gostou de objetos fora de lugar, e só agora percebo com clareza suas manias, que, desafiando o Alzheimer, permanecem.

Senti inveja do Cony que recebeu um embrulho, uma carta do pai. Lá estava seu nome em letras miúdas e caprichadas, como nunca fez meu pai para mim. Faltou oportunidade e talvez até intimidade 'nos anos mais antigos do passado'. Poderíamos ter conversado mais, ter descoberto mais coisas sobre nós dois. Mas hoje meu pai é outro e eu sei tudo dele. Se conseguisse escrever, tenho certeza que faria uma bela carta para mim. Assim como eu faço para ele, sem esperar nada em troca.


"Ao se despedir dos colegas, não estava carregando nada. Nenhum sinal de embrulho. Tampouco me comunicou que o havia retirado do armário. (...) Ele estava, então, com 61, 62 anos no máximo. Viveu até os 91. Nunca mais me falou do embrulho. Dez anos depois de sua morte, aqui está o embrulho. Talvez não seja o mesmo, impossível que seja o mesmo. Agora, tudo está ficando possível"

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