Até poucos anos atrás eu só conhecia uma Helena. E ela morreu de Mal de Alzheimer. Eu não conhecia a doença, não sabia nada sobre essa demência, e me culpo pela falta de informação, ou melhor, pela ignorância. A minha experiência, péssima, não deve ser seguida por outras pessoas e, por isso, gosto de escrever sobre o tema hoje em dia, já que meu pai foi pego de surpresa com esta doença. Quanto mais informação, mais preciso será o diagnóstico, e também o tratamento.
Helena era a avó do meu ex-namorado. Namoramos durante quatro anos e, todos os domingos à noite, íamos à casa dela. Eu, que sempre tive minha avó longe, considerava dona Helena a minha avó. Ela era bem pequena, magrinha, olhos azuis atrás dos óculos de lentes grossas, sorriso fácil. Até hoje seu sorriso não saiu da minha mente. Dona Helena adorava assistir Silvio Santos e se divertia com o programa dominical do apresentador. Nos comerciais, buscava alguma guloseima pra gente comer, e contava suas histórias, sempre adoráveis.
Com o passar dos anos, ela foi ficando ainda mais sorridente. Ria de tudo. Lembro-me que uma de suas manias, já nesta época, era certificar-se de que a porta da cozinha estava fechada. Fazia isso várias vezes - exatamente como o meu pai faz hoje, com todas as portas e janelas. Dona Helena adoeceu muito rápido. "Coisa da idade", diziam. Para mim, que à época tinha pouco mais de 20 anos, também achava que devia ser coisa da idade [imperdoável, Paula!].
Ainda hoje a risada da dona Helena soa em meus ouvidos. Foi o riso mais gostoso que já ouvi. Contagiava. Mas logo essa alegria foi se apagando. Seus dias se passavam numa cadeira de rodas ou numa cama. Ajudei algumas vezes a dar banho em seu mirrado corpinho, participei das refeições, servindo-a, mas não me lembro do seu enterro. Em menos de dois anos, após acharem que 'era coisa da idade', ela morreu. Fiquei apenas com a imagem do sorriso de dona Helena - uma Helena completamente diferente destas que vemos nas novelas. Para mim, ela era um anjo em pessoa.
O namoro acabou há dez anos. Dona Helena morreu, provavelmente, em 1998, se não me falha a memória. Em 2005, meu pai começou com os mesmos sintomas: um sorriso que nunca teve antes, manias, esquecimentos, machucados, insegurança, escondendendo coisas... Não achamos que fosse "coisa da idade" e logo procuramos vários médicos, até chegar ao diagnóstico do Mal de Alzheimer, embora ele só tivesse 60 anos. Já se passaram quatro anos e o tratamento faz muito bem a ele. Mas é impossível parar a doença.
Prefiro pensar que dona Helena é mesmo um anjinho hoje. E, pela experiência que tive, não admito que ninguém diga que determinada pessoa está doente 'por causa da idade'. Isso realmente não existe! Quem ama, procura saber qual é o problema, trata, supera, vai em frente.
Não podemos deixar que a falta de informação nos contamine. Mais de 35 milhões de pessoas sofrem de Mal de Alzheimer atualmente e, segundo um estudo de uma universidade de Londres, esse número deve dobrar a cada 20 anos. Sinceramente, não quero correr o risco de minha memória falhar e, daqui 20 ou 30 anos, alguém achar que é coisa da idade. Quantas pessoas já devem ter morrido antes da hora, sem tratamento?! Não há cura para esta doença, mas o tratamento prolonga seus estágios, dando mais qualidade de vida à pessoa, além de abrandar os sintomas.