terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Varrendo o passado

Era manhã de primavera. Folhas tingidas de amarelo deslizavam dos galhos e dançavam em sintonia com a brisa que passava pela rua. Uma nova cor florescia entre as flores do jardim. A menina descansava o queixo sobre a palma da mão e olhava pela janela. O Natal se aproximava, mais uma vez. O fim de ano lhe cobria de nostalgia.

Trocou a mão que amparava o rosto. Repousou o corpo numa cadeira, ainda com vista para o horizonte. A visão atravessava a janela; a imaginação a teletransportava. Ela o via caminhando em sua direção, de mansinho, como as nuvens que se aprumavam pelo céu. Lembrou o último beijo. Sabia que era mesmo o último. Uma loucura. Um devaneio. Um amor impossível. 

O verão começava a aquecer as lembranças. Ela ainda o desejava. Ele a atraía como presa fácil. Ao vislumbrar a distante linha do horizonte, agora com mais critério, percebeu a chegada de algumas nuvens carregadas. Era hora de dar um basta. Sabia que este amor traria tempestades, trovões, chuva de lágrimas. 

Afugentou-o novamente num canto do coração e ali deixou seu amor aprisionado. Não sabia por quanto tempo, mas gostaria que fosse para sempre, ou até um abalo sísmico provocar tremores fragmentados em lembranças.

Retirou a mão do queixo. Ergueu a cabeça acima da janela e olhou para o mundo. Estava pronta para abrir a maior parte do seu coração e encontrar alguém que o preenchesse. Alguém que fizesse por merecer o melhor que ela tinha a oferecer.

A chuva despencou ligeira pela janela. A mulher levantou da cadeira; enxugou as lágrimas. Fechou uma porta. Abriu outras. O ventou entrou e arejou seus pensamentos. Varreu o passado. Bateu à porta o presente e o futuro. Mais um ano estava prestes a nascer.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Quando faltar forças...




Às vezes a gente acorda se sentindo péssima. Ultimamente, tenho acordado muitos dias assim. Não sei se é sintoma de velhice, mas acordo muito cedo e, se tento ficar mais tempo na cama, me sinto culpada porque poderia estar fazendo alguma coisa. Parece que o relógio está apressado e eu perdendo tempo.

Quando assisti ao vídeo acima, constatei que meu tempo pode - e deve - ser muuuito mais aproveitado porque estou repleta de saúde. E com ela a gente vai longe, como este moço, que não tem os braços e as pernas, mas talvez já tenha feito muito mais coisas do que eu e você juntos!

Esta história verídica é uma mensagem pra vocês, queridos leitores do blog Palavras ao Vento, neste fim de ano. Espero que possam sorrir com esta linda lição de vida! Mas também fiquem à vontade para chorar, tá?

Um beijo

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Querido John



Sugestão de filme. Aliás, um filme lindo como o livro "Querido John".

domingo, 12 de dezembro de 2010

Roupa nova, procura-se.

Existe uma época do ano em que alguém inventa de colocar um gorro vermelho na cabeça, uma barba branca e, depois de todos os outros apetrechos, se despeja numa poltrona de veludo, também vermelho. Ali, sentado, ouve dezenas de pedidos, distribui balas, sorrisos, esperança. Pra mim, esse período é totalmente nonsense.

Existe uma época do ano em que eu faço uma contagem regressiva para o tempo começar de novo. Pra ele me dar mais uma chance. E esta época é agora. Neste exato momento em que a insatisfação toma conta de mim.

Nas últimas semanas, trabalhei mais do que o ano inteiro. Pari uma revista e várias histórias tumultuadas que me trouxeram insônia, dor de cabeça, desânimo. A revista ficou pronta. Me desmanchei feito Amélie Poulan. Me joguei na cama e as lágrimas rolaram lençol abaixo. 

Existe essa época do ano em que eu quero ser a salvadora do mundo, enquanto outras pessoas buscam salvação pra mim. Não há salvação. Eu choro mesmo, por qualquer coisa que seja. Choro para o ano acabar, choro pra ter fé de que 2011 vai ser melhor.

Este foi o ano em que minha família mais lutou contra o Alzheimer. E, infelizmente, a doença venceu até agora. Se torna cada vez mais poderosa. Afugenta o meu pai num castelo de areia, desmoronando aos poucos. 

Existe uma época do ano em que eu me visto de tristeza. Disfarço. Sorrio com lágrimas por dentro. Adquiro novos figurinos para o guarda-roupa, mas a insatisfação veste minha alma.

Acaba logo, ano! Encerra o meu descontentamento. Me traz uma roupa nova.  

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A gata do vizinho

Hoje de manhã, no quintal de casa.

 A gata do vizinho aparece no telhado, com olhar meigo


Cobiça a ração do meu gato. Quiçá, o meu gato. O olhar traça o destino, do pote de ração ao meu felino


Momento tenso, reflexivo. Será que o gato vai corresponder aos seus gracejos e ela vai ganhar ração?


Ih, sujou, o cachorro vem vindo aí...



[história verídica, que precisou de legenda]