domingo, 15 de setembro de 2013

Velha prosa


O domingo começou embaixo de um pé de jabuticaba, onde me sentei para prosear com quatro senhoras - três delas em cadeiras de rodas. Eva, Lurdes, Leonor e Nica. Eram cerca de 330 anos repousando sob a sombra da jabuticabeira, mais 36 meus e uns 42 de minha amiga Cíntia. Pois bem, quase 400 anos sob o tronco disperso da jabuticabeira. Experiência de sobra e histórias para dar e vender.

Eva adora o Harry, o cachorro da Cíntia, filha dela. Lurdes estava a fim de uma soneca. Leonor encantou-se com as fotos do aniversário na clínica de repouso e Lurdes, ressentida por ser a caçula de 12 filhos e única a ser deixada na clínica, me contou 17 vezes que nasceu em Jundiaí, na rua do Rosário, perto da Catedral.

_Onde você nasceu, filha? _ perguntava Lurdes toda hora, e lá vinha ela contar de novo sua história, revelada há poucos instantes. Talvez o Alzheimer também tenha espreitado sua vida. Em seu colo, o jornal Folha de S. Paulo anunciava que a Dilma cancelou a viagem aos Estados Unidos. Foi então que Lurdes percebeu, na capa, que hoje era domingo.

As folhas da jabuticabeira caíam sobre nossas cabeças. O calor fazia Harry deixar a língua de fora e Eva teve de tirar a blusa para refrescar.

Lurdes continuou a repetir insistentemente sua história. Nasceu em Jundiaí, mas morou boa parte em São Vicente, litoral paulista, e agora, aos 89, voltou a morar em Jundiaí, mas numa clínica de repouso, a mesma onde seu marido morreu. As lágrimas rolam em sua face. Não se conforma. Por ironia do destino, tem uma irmã internada na mesma clínica, a Odete, com quem nunca se deu bem. Enquanto Lurdes passa o dia sob a jabuticabeira, Odete vê televisão na sala. E não conversam nunca, nem se encontram. Vez ou outra, um filho de Lurdes aparece.

A todo tempo diziam as quatro: "Ninguém sabe o dia de amanhã, filha! A gente nunca espera que vai acabar aqui. Fazer o que?"

Eva procurava o Harry, o sapeca maltês branquinho, de coleira azul. A travessa de maria-mole levada pela filha fez sucesso. "Tem mais?", perguntava Eva, mirando o doce preferido.

A bengala de Lurdes despenca no chão. Quebra o silêncio daquelas senhoras saboreando a maria-mole. Dali a pouco, as cuidadoras vêm chamar para o almoço, e lá vão elas, conduzidas pelas mãos, para o refeitório.

A jabuticabeira faz sua sombra para ninguém. Os bancos se enchem de folhas até que alguém volte a sentar-se por ali. E escutar novas ou velhas histórias.

"Ninguém sabe o dia de amanhã..." - uma frase que ainda faz eco aqui dentro.