domingo, 16 de junho de 2013

Amor que (infelizmente) nunca vi

"Mas talvez, você não entenda / Essa coisa de fazer o mundo acreditar / Que meu amor, não será passageiro / Te amarei de janeiro a janeiro / Até o mundo acabar" (Nando Reis e Roberta Campos)

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Meu avô se foi há 30 anos. Lembro-me pouco dele. Fumava muito, morava numa casa enrugada como seu rosto, chão de terra, árvores no quintal. O pé de amora era meu alvo. Foi o primeiro pé de amora que vi na vida. E achei sensacional! Como podiam as frutas crescerem no tronco? Facilitava muito a nossa vida.

Não me recordo do enterro. Apenas lembro de minha mãe me aprontando para o velório, a 120 km da nossa casa. Ela abotoava meu macacão vermelho de veludo, enquanto as lágrimas deslizavam por sua face. Foi a primeira vez que a vi chorar. E tanto o macacão vermelho, como aquele choro incontido, marcaram minha infância.

Eu tinha 6 anos quando meu avô partiu. Diziam que ele era um homem bravo. Gostava dos bares da vida, das mulheres. Foi quando eu descobri que as pessoas morriam. Chorei uma semana sem parar. Não sei como tive tantas lágrimas. Um exagero, na época. Mas me derramei! Lembro bem disso. Não me conformava que, um dia, minha mãe iria morrer, meu pai, minha irmã, eu... Então pra que a gente nasce? - me questionava.

Não cheguei a conhecer meu avós paternos. Morreram antes de eu estrear nesta vida doida, que um dia realmente acaba, sem te dar um aviso prévio. Minha avó materna hoje está com 93 anos. Mantém a aliança do matrimônio no dedo, 30 anos depois de enviuvar. Também é a primeira e única vez que vejo um amor assim, devoto ao passado, à página virada.

Estaria ela certa? Não sei. Só sei que no "mundo de hoje" os casamentos duram pouco. Parece até que deve ser assim. Revezamento de casais, uma busca pela felicidade. Se não dá certo com um, vai dar com outro. E assim segue, numa sucessão de tentativas. Minha avó, porém, é a referência do amor que cultua a eternidade. Ela é da tradição do amor sem fim, "até que a morte nos separe". Minha mãe herdou essa cultura.

A fila anda? Não para elas. A fila para exatamente quando se encontra o amor verdadeiro. Mesmo que ele se vá. Uma sentença linda, um sentimento em desuso hoje em dia. Muitas vezes é mais fácil dar o próximo passo para não enfrentar obstáculos. Muitas vezes, é mais fácil abandonar do que cuidar de um amor.

Uma das duas vezes em que minha avó esteve em casa, em 30 anos


terça-feira, 11 de junho de 2013

Uma imagem que vale a lembrança


Há pessoas que retratam além da sua imagem. 
Elas simplesmente captam seu estado de espírito e sequestram sua alma.

(Photo by Wanderley Massafelli, from Dublin - Ireland)

E o dia passa por mim...



Sabe aqueles dias em que você acorda perdidaça no tempo e no espaço? Abri os olhos e não conseguia enxergar a terça-feira. Aliás, não sabia que dia era, se devia ir pra aula de espanhol, inglês, se era sábado, domingo, ou se tinha de levar alguém ao médico ou buscar algum exame. Day off. Assim acordei no meu dia de folga. E perdi a aula de espanhol por pura preguiça de sair da cama, trocar de roupa, tomar café, cuidar do papis... Preguiça master me comprou. Cansaço, esse sim tomou conta de mim. Dor no corpo, na cabeça, visão embaçada.

Então mamis queria comprar um liquidificador e um espremedor (de laranja). Será que o espremedor serve pra outra coisa? Bom, sei lá. Saí de casa me sentindo espremida dentro do corpo. Todos os vendedores dos dois hipermercados que percorremos estavam de mau humor, com preguiça, sem vontade. Estariam espelhando minha estafa mental e física? Impossível. Mas todo mundo tem os seus dias de se sentir um "nada". E se hoje é minha folga, estou no meu direito de me sentir como eu quiser. Sou nada, pronto. Nem um grão de areia quero ser.

Por outro lado, a "folga" é dia de escrever aquela matéria que você está enrolando, adiando há dias... E a inspiração não vem. É o dia de colocar o dever de inglês em ordem. Resolver pendências. Por que hein??? Será que a folga não poderia ser simplesmente folga?

Dia após dia secando o cabelo após o banho - sim, eu lavo meus longos cabelos todos os dias, pois se não for assim, me estresso. Taí uma coisa estranha. Uma mania besta. Mas que me causa grande incômodo se a tarefa não for realizada. Hoje, no entanto, dei folga para o secador. Desejo que os cabelos sequem como quiserem, ao ar livre, ou simplesmente estendidos no travesseiro. Tô nem aí se vão molhar a fronha!

Tô nem aí pro que vão falar da minha preguiça. Eu preciso de descanso. E o mundo pode esperar um pouquinho pra que a gente se restabeleça. Se até os ipês amarelos perdem suas folhas e flores e carecem de nudez, também preciso despir minha alma pra florescer de novo. Mas só amanhã, e não tão de manhã.