quarta-feira, 28 de março de 2012

Eu só quero chocolate!

"Viver é desenhar sem borracha"
[Millôr Fernandes]



Eu já fiquei uns três anos sem tomar refrigerante. Já fiquei 365 dias sem chocolate. E sobrevivi! Mas só para provar que sou forte (mentira!), resolvi fazer um sacrifício, de novo, e ficar 40 dias sem chocolate. Juro, está sendo mais difícil do que ficar um ano inteiro sem essa droga adocicada. Ô fase!

Tem horas em que eu acredito que um chocolate poderia sanar todos os meus problemas. É... são muitos. Sabe aquela sensação de colocar algo na boca e sentir que era tudo o que seu corpo (e sua alma) precisava? Ai, Páscoa, chega logo, pois não sei se aguento até lá. Aguento.

É nessas horas mais difíceis da vida que a gente começa a achar que os amigos são inimigos mortais. Na semana passada, por exemplo, uma amiga me trouxe um presente: chocolate. Uma fofa. Mas ai... Tranquei a sete chaves o presente dentro da bolsa. Pouco olhei pra ele. Tá no armário esperando pra ser comido. Fui a uma palestra dia atrás e, no final do evento, distribuíram sabe o quê? Claro, isso mesmo. Nossa, deu até água na boca! Estava com tanta fome na ocasião... E uma amiga abriu o doce na hora e saboreou como se fosse a coisa mais deliciosa do mundo. Amiga?!

Poxa vida, essa abstinência de chocolate tá me matando. E eu nunca fui viciada nisso. Vai entender...

sábado, 17 de março de 2012

Não tenho andado distraída...



O Leandro
Setor de quimioterapia. 10 da manhã. A mulher forte se senta na poltrona ao lado de outras dezenas de pessoas e aguarda sua sentença: uma agulha na veia, um soro pra fortalecer os ossos da coluna. A porta se abre e um rapaz na cadeira de rodas é empurrado por uma enfermeira. Você consegue levantar, Leandro? Nenhuma reação. Tiram-no da cadeira e despejam o corpo mirrado do rapaz na poltrona da sentença. Não deve ter mais de 20 anos. Não deve pesar mais de 35 quilos. Ele usa máscara. Não tem cabelo. Tem pernas de garças. Do jeito que o colocam na poltrona, ele fica. Deixa a cabeça pesada tombar para o lado. Respira com dificuldade seu silêncio. Não tem mais voz. Não tem mais força. Tem um eco na alma. Os pais chegam e se aprumam ao lado do Leandro. A mãe ampara a própria cabeça com as mãos. Os olhos se enchem de lágrimas. Solta um suspiro de dor. Mais uma picada na veia. Uma dose miúda de esperança para o rapaz.
Aquela mulher forte que sentou ao lado de Leandro saiu de lá fraca. Mas conseguiu enxergar o quanto a vida ainda lhe tem sido generosa.


O Matheus
Vinte e sete degraus separam a vida de Matheus do mundo lá fora. Ele tem 11 meses de vida, sempre nos braços da mãe. Matheus não tem as pernas. Nasceu assim. A mãe não se conforma. O menino não vai engatinhar. Não vai correr pela casa como os irmãos. Nunca, jamais, vai descer os 27 degraus da casa, encravada no alto do morro. A vida lhe trouxe uma ladeira bem acentuada. Uma montanha de problemas. Dificuldades. O armário estava vazio. Mas os dois cômodos da casa tinham o necessário. Amor. Era o único alimento naquela hora. A mãe lamenta não poder trabalhar. O Matheus vai precisar de seus braços por alguns anos. O pai, covarde, abandonou o lar. As crianças. A mulher-maravilha. Mesmo assim, Matheus mostra os seis dentes quando vê o pai chegando. O mesmo pai que deu um passo pra trás. E não vai conseguir ajudar Matheus a dar um passo à frente.
A solidariedade visitou o moleque na quinta-feira. Subiu animada os 27 degraus que separam Matheus da dura realidade fora (e dentro) de casa. Encheu os armários de alimentos, fraldas, leite, esperança... A mãe chorou. O menino mostrou os seis dentinhos.


A atendente
Drive-thru. Avenida 9 de Julho. Quase uma da tarde. O carro estaciona em frente à janela. Boa tarde! Já vou trazer os dois sanduíches, diz a moça, atarefada. A motorista observa o movimento através da janela. Muita gente no balcão. Um bocado de famintos no interior da loja. Sem nenhuma cerimônia, a atendente coloca as mãos dentro da calça. Na parte de trás. O volume é grande. A motorista custa a acreditar no que vê. A atendente puxa a roupa íntima pra cima, ajeita as coisas. E em seguida, agarra com seus dedos um lanche. Entrega no balcão. Para um cliente. Felizardo. Premiado! Desafortunado. A atendente tem os braços, as pernas, e até a bunda, perfeitos. Não lhe falta nada, além de cabeça, respeito, educação, bom senso, higiene e saúde mental.

Ainda olho para cima...



Linda letra, lindo vídeo. "I Won't Give Up", de Jason Mraz

domingo, 11 de março de 2012

Questão de prioridades

O ano, pra mim, geralmente começa depois das férias. Afinal, é o único momento de verdadeiro descanso, já que fim de ano para jornalista não significa absolutamente nada, além de trabalho. Nos 45 do segundo tempo defini a viagem, paguei e pronto. Chega de pensar. Uma coisa de cada vez. Eu sempre quis conhecer o mundo inteiro e trocentos lugares povoam minha imaginação, mas só tenho uma férias por ano, então, sossega, menina! Daqui três semanas embarcamos de novo.

Com o passar do tempo o perfil desta sagitariana foi mudando. Antes eu viajava pra alimentar a alma, pra me divertir, pra conhecer gente nova, pra voar (adoro!). Hoje, continuo viajando pra alimentar a alma, mas penso num lugar que tenha a minha cara, que seja o meu perfil: tranquilo e ao mesmo tempo aventureiro. Não faço mais viagens pra curtir praia, pra cair na gandaia à noite. Não tenho mais paciência pra isso. Agora, mais madura, e com o corpo querendo envelhecer (não deixo!!!), prefiro as aventuras de ecoturismo - o que muita gente acha coisa de índio. Vambora caminhar, corpinho!

Há 15 dias comprei uma mochila. Já estava pensando nessa viagem para o meio do mato... Primeiro penso na minha máquina fotográfica - abandonada, a coitada - e depois escolho o lugar que ela certamente vai se dar bem comigo. Nós duas temos de afinar o olhar na hora da escolha. Se ela topa, tô dentro. Ou seria o contrário? Eu topo e ela vem comigo. Bem, a ordem das coisas não altera nossa necessidade de viajar, nossa ânsia de abandonar tudo e estar entre as árvores - que mundo encantado eu vivo! Como diria uma amiga, "desce da árvore, Alice!"

Agora eu mesma me pergunto: por que, um ano depois de comprar uma boa máquina fotográfica, eu ainda não fiz um curso?! Por que?! .................................... Tempo esgotado. Sem resposta. Além de alimentar a alma, vem aí mais um desafio pela frente, trazer boas imagens, usando uma máquina bacana no sistema automático. Sem graça, mas é o que temos para este momento. Promessa para este ano: concluir um curso básico de fotografia.

Outra promessa: não deixar que os planos desmoronados me façam abandonar os sonhos. Em abril deste ano eu ia para o Canadá (como a famosa Luísa), seria um intercâmbio e estava sendo planejado com bastante antecedência. Pouca gente sabia. Faltava apenas decidir a questão de habitação e, finalmente, fechar a viagem. Quinze dias depois de ir à agência de turismo, descobri que minha mãe tinha um tumor na coluna, sem perspectiva de cura. A viagem ficou em segundo plano. A mãe, em primeiro.

A vida é assim. Uma questão de prioridades. E a gente escolhe o que é melhor pra ser feliz.

Querida [e linda] paisagem, não saia do lugar!
Daqui a pouco a gente se encontra e trago você pra casa. 

segunda-feira, 5 de março de 2012

Tragédias da vida real

A gente decidiu de última hora. Vamos pro shopping. Nada pra fazer. Nada pra comprar. Mas vamos ao shopping. Experimenta uma roupa aqui, um colar acolá e, pronto, uma mente vazia é saciada. Aliás, duas mentes vazias. No meio de uma loja começaram as cãibras no pé. Castigo! Só pode ser. Não era pra comprar nada, tá vendo? Tudo bem. Passam-se uns minutos e as malditas dores vão embora.

Dali a pouco, o celular toca. "Tô te esperando aqui fora da loja". Tá. As cãibras voltaram e, desta vez, com força total. Começo a sambar. Mudo a posição dos pés. Os dois se retorcem ao mesmo tempo. Quase me jogo no chão pra segurar os dedos, que tentam girar pro lado de baixo. Não passa. Não passa. E não passa. Os minutos passam. E alguém me aguarda do lado de fora.

Vou para o provador de roupas. Sento no banco, seguro os pés e rezo. Sem querer, uma unha da mão acerta o queixo e ele começa a sangrar. Não sei se seguro os pés ou se tento estancar o sangue. Agrrrrr! Que inferno astral. E o sangue escorre pescoço abaixo, assim como a casca da ferida que havia li. Que situação. Dói o pé, sangra o queixo, e a roupa que provo é BRANCA, claro. Jesuuus, apaga a luz. Não tô participando de nenhuma peça teatral. E não tenho talento algum pra comédias, tampouco pra tragédias.


quinta-feira, 1 de março de 2012

10 anos e a Ana

"Algumas estrelas permanecem ligadas pra sempre depois que colidem"
[de um autor que eu gosto muito!]



Nem sempre a gente tem um dia em que se possa dizer, com convicção, que não deu nada errado. Pelo contrário, deu tudo certo, desde a hora em que pulei da cama até agora, quando há um grilo se esguelando no corredor de casa. Arte do meu gato, que fica babando pelo inseto! Felinos...

Há muito tempo eu não ficava tão feliz. E quando a Ana me mandou um e-mail por volta das 16h, achei que eu ia transbordar de alegria pelos olhos. Um filme dos últimos dez anos passou pela minha cabeça, como se eu já estivesse olhando pra tudo com certa nostalgia.

Eu não conheço a Ana. Ela não me conhece também. Mas trouxe hoje a melhor notícia da última década. E não poderia ser num dia mais do que especial. Neste 1º de março completei 10 anos de jornalismo. Dez anos na mesma empresa. É praticamente uma outra família que vive fora de casa e quando um dos integrantes deixa a "embarcação", um mar de lágrimas se levanta. É... algumas vezes isso aconteceu. Pessoas muito especiais passaram pela minha vida e tocaram o barco em outros mares. São amizades inesquecíveis e que ainda as mantenho.

Pois bem... A Ana me ofereceu uma proposta tentadora. E eu teria de abandonar os últimos dez anos. Tocar meu barco, remar em outras marés, de águas doces, eu espero. Mas depois chegamos a um consenso de que este não é o momento. Uma nova proposta pode me trazer mais felicidade em breve e, de cara, gostei da Ana. Ela também gostou de mim. É mais um contato que se cria na profissão. Mais uma oportunidade, que abre as portas pra eu entrar.  

Puxa, apenas a proposta me deixou tão feliz [acho que tô bem carente de felicidade]! E foi uma alegria tal qual a primeira, há exatamente 10 anos, quando me deram uma chance pra ingressar no jornalismo. Simplesmente um dia abençoado e nada programado. Sem esperar, acho que recebi mais "parabéns" do que no meu próprio aniversário. Engraçado isso. E uma delícia, confesso. É a família que vive fora de casa falando mais alto neste 1º de março.

Ana, você não terá acesso a este texto. Mas, ó, você foi a pessoa mais importante deste dia e levantou meu astral que já estava de pé. O-bri-ga-da! Pequenas gentilezas, grandes mudanças pra alicerçar as torres de dentro.