"O tempo passa e nem tudo fica / a obra inteira de uma vida / O que se move e o que nunca vai se mover ê ê ê ê / (...) O tempo engana aqueles que pensam / e sabem demais / e juram que pensam / existem também aqueles que juram sem saber" (Nenhum de Nós)
A semana começou com uma morte, com mais notícias ruins, de doença, mas as coisas foram melhorando, até soltar coraçõezinhos pelos olhos e me entristecer de novo. Numa escala de sentimentos, diria que subi ao topo e desci ao zero.
Comprei um lenço para pôr no pescoço, coisa que nunca fiz por causa de alergias, e parece que me animei um pouco. Trouxe cor ao meu visual que andava bem incolor. No começo senti como se estivesse com um babador, aí fiz e desfiz os nós várias vezes, mas continuou parecendo um lenço para babar. Enfim, hoje cedo estava chovendo e não podia me atrasar para chegar ao trabalho. Não atrasei, milagre! Teve gente que elogiou o visual. Vai ver que é só falta de costume, Paula. Mas tenho de confessar: o adorno me incomodou o dia inteiro! Se fosse de lã, então! Ah, não aguentaria cinco minutos.
Não, o lenço não foi a solução dos meus problemas. Nem será. Só precisava mesmo de uma cor, já que me sentia transparente. Péssima, na verdade, cor de pastel frio. Logo que chego ao trabalho me perguntam se vou cobrir chuva [entendam algum barraco que desmoronou devido à chuva]. É praxe. Sempre que alguém muda o visual, experimenta botar um salto mais alto nos pés, não dá outra: a pauta é na lama, no barro, no morro, na poeira... Na semana passada foi assim. Achei uma bota em casa [e que bom ter encontrado, pois ia comprar uma], mas o salto era um tanto quanto fino. Tá, Paula, você só tem uma bota, então não restavam muitas opções para deixar de passar frio. Pois foi só botar os pés no trabalho que lá veio a pauta: invasão do MST em Valinhos. Caracas, por que ao invés de perder tempo me arrumando não pus um par de tênis na bolsa?
De manhã tenho pouco tempo. Sempre acordo cedo, mas levanto um pouco tarde. Meus ouvidos despertam primeiro que os olhos, então fico ouvindo atrocidades debaixo do cobertor, coisas do tipo:
_Ismael, você passou pasta de dente de novo no cabelo?
_ Já não falei que o gel está aqui?
_ Não é pra fazer a barba com pasta de dente também. Tem creme barbeador no banheiro.
_ Tira a calça do pijama, Ismael. Não vai caminhar com essa calça!
_ Vem tomar café, você esqueceu?
_ Babalu, para de latir!
Tento fingir que estou dormindo pra ver se o dia acorda colorido. Pra ver se um dia o Alzheimer nos faça compreender essas estranhezas. Por um dia queria ver meu pai menos confuso, menos dentro do seu próprio mundo, menos meu pai cada dia mais. Também preciso de colo de vez em quando.
Ah, comecei mais ou menos e terminei mal nessa blogosfera. Talvez precise de um lenço de verdade. O que me conforta é que daqui a dez minutos será sexta-feira.
Um comentário:
Mensagem:
"Se não puder voar, corra.
Se não puder correr, ande.
Se não puder andar, rasteje.
Pois o que importa é ir sempre À FRENTE!
** De Martin Luther King
Bj
Postar um comentário