Estava meio sem graça instantes antes de me aproximar daquele homem de barba grande, estatura acima da média, cara de mau. Ele vestia blusa de lã e calça jeans. Nos pés, não reparei, desculpe. Aparentava uns 50 a 55 anos. O calor estava infernal e prestei bem atenção à espessa blusa de lã que cobria o seu corpo.
Passei óleo de peroba na cara e fui lá, bater papo com um desconhecido que intimida as pessoas com sua estranha abordagem. Quando deixei escapar a finalidade de estar ali, ele se armou com duras palavras, ofendeu-se. Mal sabia que, minutos antes, eu o observava pedindo esmola no semáforo.
_ Não moro na rua. Estou na rua, agora, como você. _ disse-me, rudemente.
Sim, eu estava realmente na rua, trabalhando. Ele... Bem, ele também. Logo, a diferença entre nós era nenhuma.
O velho, no entanto, amenizou a carranca e desatinou a falar, justificando o injustificável. Disse que estava ali fazendo amizade.
_ São todos meus amigos... _ argumentou ele, enquanto eu pensava “até aquele senhor que nem abriu o vidro do carro é seu amigo?”
_ Eu não sou da rua. _ continuou ele, com os olhos extremamente vermelhos, cabelo embaraçado, odor de quem não toma banho há dias.
_ Sou piloto de avião. Meu avião tá estacionado no aeroporto de Jundiaí sabia?
_ Que bacana! _ fui dizendo, meio indiferente, meio interessada no rumo da prosa.
_ Tenho um filho e ele também é piloto. Mas eu sei muito mais que ele, porque fui eu quem ensinou tudo pra ele.
_ Você mora em Jundiaí, princesa?
_ Moro. _ disse eu, já querendo fugir dali, jogando as tranças cor de mel.
_ Ah, que fantástico!
_ Tenho outro avião, mas está na Amazônia, lá no rio, amarrado com um cabo de aço. Se tivesse amarrado com corda já tinha desaparecido.
_ Sei. _ cortei a conversa, reticente.
_ Então o senhor está aqui só pelas amizades, né? Eu pensei outra coisa. Desculpe-me.
_ Não tem problema, princesa.
_ Tchau, tchau. Até mais! _ me afastei e pensei em qual mundo vivia aquele velho homem, perambulando pelo semáforo da rua Zacarias de Góes, no Centro de Jundiaí.
Moral da história: Segui rindo até o carro, na tarde desta quinta-feira. Cada coisa de louco! Não consegui o que precisava para o trabalho, mas guardei a história para rir com os amigos. Antes de entrar no carro, dei uma última olhada pra trás e observei o velho barbudo morrendo de dar risada na sarjeta, sentado com outro mendigo. Acho que maluco ele não era. Talvez só quisesse tirar uma da minha cara... Eu mereço!
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