quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Prosa de doido

Estava meio sem graça instantes antes de me aproximar daquele homem de barba grande, estatura acima da média, cara de mau. Ele vestia blusa de lã e calça jeans. Nos pés, não reparei, desculpe. Aparentava uns 50 a 55 anos. O calor estava infernal e prestei bem atenção à espessa blusa de lã que cobria o seu corpo.
Passei óleo de peroba na cara e fui lá, bater papo com um desconhecido que intimida as pessoas com sua estranha abordagem. Quando deixei escapar a finalidade de estar ali, ele se armou com duras palavras, ofendeu-se. Mal sabia que, minutos antes, eu o observava pedindo esmola no semáforo.
_ Não moro na rua. Estou na rua, agora, como você. _ disse-me, rudemente. Sim, eu estava realmente na rua, trabalhando. Ele... Bem, ele também. Logo, a diferença entre nós era nenhuma. O velho, no entanto, amenizou a carranca e desatinou a falar, justificando o injustificável. Disse que estava ali fazendo amizade. _ São todos meus amigos... _ argumentou ele, enquanto eu pensava “até aquele senhor que nem abriu o vidro do carro é seu amigo?” _ Eu não sou da rua. _ continuou ele, com os olhos extremamente vermelhos, cabelo embaraçado, odor de quem não toma banho há dias. _ Sou piloto de avião. Meu avião tá estacionado no aeroporto de Jundiaí sabia? _ Que bacana! _ fui dizendo, meio indiferente, meio interessada no rumo da prosa. _ Tenho um filho e ele também é piloto. Mas eu sei muito mais que ele, porque fui eu quem ensinou tudo pra ele. _ Você mora em Jundiaí, princesa? _ Moro. _ disse eu, já querendo fugir dali, jogando as tranças cor de mel. _ Ah, que fantástico! _ Tenho outro avião, mas está na Amazônia, lá no rio, amarrado com um cabo de aço. Se tivesse amarrado com corda já tinha desaparecido. _ Sei. _ cortei a conversa, reticente. _ Então o senhor está aqui só pelas amizades, né? Eu pensei outra coisa. Desculpe-me. _ Não tem problema, princesa. _ Tchau, tchau. Até mais! _ me afastei e pensei em qual mundo vivia aquele velho homem, perambulando pelo semáforo da rua Zacarias de Góes, no Centro de Jundiaí. Moral da história: Segui rindo até o carro, na tarde desta quinta-feira. Cada coisa de louco! Não consegui o que precisava para o trabalho, mas guardei a história para rir com os amigos. Antes de entrar no carro, dei uma última olhada pra trás e observei o velho barbudo morrendo de dar risada na sarjeta, sentado com outro mendigo. Acho que maluco ele não era. Talvez só quisesse tirar uma da minha cara... Eu mereço!

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