quinta-feira, 10 de maio de 2012

Há gripes que vêm para o bem

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras de Alagoas fazem seu ofício. Elas molham a roupa suja no riacho, torcem o pano, molham-no, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem. Enxáguam, batem o pano na pedra limpa, torcem até não pingar uma só gota. Só depois é que dependuram a roupa para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer o mesmo. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer." [Graciliano Ramos]
Uma felicidade imensa, e tola, me envolveu essa semana. Rever minhas canetas, trancafiadas por 33 dias em um armário. Quanta satisfação! Todas elas, meus principais instrumentos de trabalho, me aguardando para, juntas, escrevermos novas histórias. Jornalista é assim mesmo, feliz por pouco, até por ver canetas. Tá, admito, eu tenho loucura por canetas! E quando uma delas me deixa na mão, como hoje, quando a danada resolveu parar de trabalhar no meio de uma entrevista, fico aliviada por saber que outras me esperam.

O jornalista é, na verdade, um contador de histórias. Vale uma ressalva: qualquer tipo de história, menos de pescador. Não conto mentiras, tampouco meus colegas de profissão. Tenho canetas e ideias de sobra e elas transbordam no papel. Depois, seguem o caminho da era tecnológica - à qual somos obrigados a aceitar. O computador facilita tudo. O que estava escrito no papel é transportado (e modificado automaticamente) pelos dedos ágeis no teclado, uma espécie de lapidação das palavras.

Sinto falta de boas histórias no jornalismo. Não sei se é desânimo ou incapacidade de achar coisas interessantes. Qualquer telejornal bombardeia seu noticiário com desgraças. As manchetes de jornal são trágicas, aliás, são as que vendem jornal. No rádio, nada atraente além da previsão do tempo e do trânsito. Pipocam homicídios, atentados terroristas, quedas de aviões, e o Pedro (do quê mesmo?) segue em coma. Nada disso altera a minha ou a sua vida.

Matemos a charada. Não existe, em lugar nenhum do mundo, um assunto de interesse comum a todos. Cada qual gosta de um tema e pronto. Mas as notícias ruins, meu Deus, como se destacam na boca do povo! Pior: elas são tratadas em rodas de conversa nas quais as pessoas disputam as piores notícias do dia. E, pra mim, a pior de todos os tempos foi a atriz que foi "vítima" de hackers na internet e teve várias fotos de seu corpo nu espalhadas pela rede. Isso não é assunto pra Jornal Nacional, gente. O que anda acontecendo?!

Uma das minhas próximas pautas é entrevistar a menina-sem-nome-nem-conteúdo que estampa as páginas de uma revista, mostrando o traseiro, a comissão de frente e outras alegorias. Sem comentários. E sem sugestões de perguntas para a moça, confesso.

Acho que essa gripe está me deixando muito chata.

5 comentários:

Anônimo disse...

Sabe que no fundo tenho saudades da profissão que abandonei.... Sou sua fã número 1! Bjs, Vicky

Unknown disse...

Amiga, tenho certeza que vc faria a diferença no jornalismo. E uma pena ter deixado seu blog também. Bjo com muuuuita saudade.

Vitoria disse...

Estou criando outro!!! rs
Ja tem um post. Te mando por msg.
Bjao

lipe fonseca disse...

meu bem, para você ficar chata, teria que nascer de novo. este discussão sobre o que é notícia me lembra a facudade, hehe. eu estudei com o ex-colega seu, o Eduardo Passos Quase Português, hehe. adorei isto aqui "Jornalista é assim mesmo, feliz por pouco, até por ver canetas", infelizmente, é verdade! mas você esqueceu de mencionar os adorados blocos de anotação, haha. nós somos estranhos! beijo

Unknown disse...

Lipe, querido, acho que essa semana eu devia nascer de novo então! Tô insuportável!
Nossa, por onde será que andam os Passos do Eduardo?! Saudades dele...
Ah, é verdade, os bloquinhos também são objeto de coleção. Hoje ganhei mais um numa pauta... rs Beijo