Acordamos cedo. Bem cedo. Eu e ele. Estavam marretando o telhado da casa da vizinha, a poucos metros da janela do meu quarto. Era meu dia de folga. Levantei da cama contrariada. Ele, comigo. Tentei um acordo. Eu vou. Você fica. E quando já estava sentadinha no banco, olhando a paisagem pela janela do trem, lá estava ele. Comigo. Me perseguiu em cada cenário. Travou vários diálogos mudos. Sempre comigo.
De repente entra uma mulher segurando um guri com topete de jogador de futebol. Cheio de gel. Era a minha oportunidade de distração e de não enxergá-lo em cada paisagem da janela. _ Sente-se no meu lugar _ sugeri. Mas a mulher não quis. Me deu as bolsas para segurar e o garoto se agarrou às sacolas e à mão da bisavó. _ Vou descer na próxima estação. Obrigada. _ justificou ela.
Chegamos à Estação da Luz. Ele ainda estava comigo. Andei sem rumo pelas escadas, catracas e becos. Devagar. Ele me acompanhou. Atravessei uma avenida. Subi uma passarela. Andei mais um pouco. Lá estava a rua 25 de Março, o lugar em que é impossível se sentir sozinha. Para minha surpresa estava bem tranquilo. Entrei em várias lojas. Tentei me distrair de novo. Mas ele estava comigo a todo instante.
Resolvi me estressar. Entrei na fila do McDonald's. Meia hora pra conseguir um lanche. Sentei com uma desconhecida. Recebi uma mensagem no celular, de uma amiga que estava tomando caipiroska em Porto Seguro (que chato!). Barriga cheia. Pernas em movimento. Fui até a Ladeira Porto Geral e aos poucos ele foi me deixando. Comecei a voltar. A voltar a ser quem eu era. Ou sou. Já não sei mais. Entrei em mais uma porção de lojas. Comprei presentes para os outros. Nada pra mim.
Na rua das Noivas, uma jovem me pergunta como faz para chegar à Estação da Luz. Ensinei. E assim conheci Paloma, menina de bom coração. Simpática. Falante. Sentou comigo no banco do trem. Me fez companhia até Franco da Rocha, onde ela mora e trabalha. Acabou de se formar em Nutrição. Espantou-se que me formei em Jornalismo há 11 anos (caracas, é tempo pra caramba!). Encarei como elogio o espanto dela. Desejei sorte a Paloma, que tem pressa de subir na vida. Na carreira. Vai prestar um concurso pra dar aula em curso técnico de Nutrição. _ E você, quais são suas pretensões? _ perguntou-me. _ Eu? _ desconversei. Tanta coisa pra dizer... Mas a profissão não era o que me incomodava naquele momento.
Paloma chegou à Estação Franco da Rocha. Disse que esperaria me ver um dia no lugar da Fátima Bernardes. Tá. Tá bom. Nos despedimos e a vi sair pela porta, no meio da multidão. Olhei a paisagem na janela e ele estava lá. Calado. Mas estava. Voltou ligeiro pra me acompanhar até Jundiaí. Até este exato momento.
Ah, pensamento! Não me deixa nunca esquecer... O que não quero esquecer.
4 comentários:
Pensamentos, desde 1.000.000 aC nos punindo com verdades! rsrsrs
Que filósofo, Gu! rsrs
Beijos
Passei por aqui, prá agradecer que você passou por lá. Bom sentir sua presença, bom ver seus textos, bom sentir sua mochila cheia de sonhos, bom imaginar que a vida é cheia de caminhos e que a gente se cruza numa curva, numa encruzilhada, num fim de tarde ou num sonho à noite, numa hora de luz ou na maior escuridão. Bom é saber que os caminhos se cruzam e que a vida passa. Obrigado por você existir!
Querido Nelson,
Melhor que a sua visita é receber um recado tão lindo, tão carinhoso. Você foi e continua sendo importante na minha vida. É uma das minhas inspirações no jornalismo. Obrigada, também, por existir e cruzar o meu caminho!
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